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Entrevista: Ricardo Joseh Lima (UERJ)

Entrevista realizada por: Izabel Leite, Jessica de Oliveira, Ariele Gomes, Isabella Souza, Carlos Barbara e Vicente Junior (Letras-UFPB).


1. Existe, dentro da linguística, um número de subáreas para se escolher, assim como linhas de pesquisas. Quais motivos lhe levaram a escolher a Sociolinguística? Pode contar um pouco da sua trajetória acadêmica até chegar aqui?

Meu primeiro contato com a Sociolinguística aconteceu com o projeto de Iniciação Científica que eu participei na graduação. Eu ainda não tinha muitas noções das subáreas da linguística e assim no mestrado passei para o Gerativismo. Minha volta à Sociolinguística se deu depois de anos como professor na Uerj por acreditar que é uma subárea que consegue atrair os alunos, levantar pontos importantes para a vida profissional deles e ser mais adequada para divulgação científica do que as outras subáreas.

2. O que cabe a Sociolinguística Variacionista apurar em suas pesquisas? Poderia dar uma explicação breve sobre a Sociolinguística que seja compreensiva para pessoas que não são do ambiente acadêmico linguístico?

A Sociolinguística vai, em um primeiro momento, descrever como grupos de pessoas falam: jovens, pessoas de baixa renda, universitários, pessoas que moram do outro lado da cidade, todos esses são exemplos de grupos. Depois de descrever, vai tentar demonstrar que cada modo de falar de cada grupo é construído, e portanto, adequado para as situações comunicativas que eles vivem. Assim, acaba por concluir que se setores da sociedade dão mais valor a um modo de falar do que a outro fazem isso por questões culturais e sociais, mas não com bases linguísticas.

3. A Sociolinguística é uma área relativamente nova em comparação a outras áreas, por conta da própria Linguística ser recente. Você acredita que ela deveria ser mais abordada em ambiente acadêmico e no dia-a-dia? Quais dificuldades são encontradas na incorporação da Sociolinguística no ensino?

A Sociolinguística enfrenta resistências por ir contra o senso comum. Por outro lado, muito do que não é compreendido pela sociedade a respeito da Sociolinguística se deve ao fato de o corpo de pesquisadores universitários não ter sido capaz de desenvolver habilidades de comunicação com a sociedade.

4. Qual a importância do tratamento estatístico para analisar variações e variáveis e como as variáveis não linguísticas influenciam ao analisar dados linguísticos?


Dentro de um quadro quantitativo, a estatística é de relevância fundamental, não apenas por garantir mais cientificidade ao trabalho, mas também porque há diversos modos de aplicar ferramentas estatísticas e também de interpretá-las.

5. Apesar da Linguística ter “nascido” há mais de cem anos, foi apenas nos anos sessenta que Labov viria a criar uma metodologia e uma teoria da variação, focando no fator social da língua. A metodologia proposta por ele evoluiu ou se alterou de alguma maneira? Se sim, por quê?


Acredito que tenha evoluído por questões como comunidade de fala e estilo. A internet possibilitou uma conexão maior entre as pessoas e também trouxe mais lugares de fala, fazendo com que a percepção de uma norma estanque se torne mais difícil.

6. Como são coletados os dados e feita a análise na perspectiva da Sociolinguística e como são selecionados os falantes? Como é o contato com eles?


Essa pergunta é por demais abrangente, pois não leva em conta as diversas formas de fazer um estudo sociolinguístico. Ainda que eu fornecesse uma resposta, seria sempre incompleta.

7. “No estudo de algumas variações fonológicas, as diferenças constatadas na linguagem de homens e mulheres foram muitas vezes atribuídas a diferenças no aparelho vocal. Você concorda que diferenças linguísticas entre os sexos possam ser devidas às diferenças biológicas?” (Retirado de Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação, 2017, p. 42)

De forma alguma a fonte das diferenças é biológica. Se assim fosse seria possível estabelecer uma estabilidade entre as diferenças entre homens e mulheres ao longo das histórias das línguas. E ainda, a distinção binária entre homem e mulher me parece estar em xeque.

8. Quais são os softwares mais usados dentro das pesquisas sociolinguísticas?

Goldvarb, Varbrul e mais recentemente softwares baseados em R.

9. Em 2011 foi iniciado o programa de extensão ‘’Linguagem, Ciência e Divulgação’’, no qual você é um dos integrantes, que visa divulgar informações e ações contra o preconceito linguístico para mudar o ponto de vista das Escolas acerca desse tema. Por que o programa foi direcionado às escolas com esse objetivo? Como um professor da educação básica pode introduzir discussão acerca da sociolinguística em suas aulas?


Ele foi direcionado às escolas por considerarmos que sociolinguística não era um tema presente nesse ambiente ou se era seria apenas no ensino médio. Um professor pode começar discutindo sobre diversidade e respeito.

10. Ainda sobre o programa "Linguagem, Ciência e Divulgação", nele é abordado a questão da norma padrão e não padrão, puxando o gatilho para o preconceito linguístico, como a Sociolinguística pode contribuir para amenizar essa problemática? Os resultados das análises sociolinguísticas podem se fazer valer para legitimar a língua não padrão?

A sociolinguística pode ajudar as pessoas a entender que norma padrão é uma ilusão, um conjunto de regras sem sentido e com uma origem duvidosa. A língua não padrão vai ser legitimada quando as pessoas conhecerem a história dessa língua e sua própria história.

11. Em alguns dos seus projetos e trabalhos, o preconceito linguístico é abordado. Com a expansão da internet e inclusão digital, houve transformações nos veículos de comunicação em massa que facilitaram a interação entre pessoas com realidades distintas. Qual a sua opinião (diagnóstico) sobre a influência da internet, mais especificamente das redes sociais e seus recursos, em relação ao preconceito linguístico? Há uma tendência de distanciamento ou aproximação entre o Português Brasileiro padrão e o não-padrão?


A internet facilitou nosso contato com o público alvo, mas ela em si não é suficiente. Precisamos de um algo a mais para atingir esse público. A tendência é de afastamento, ainda mais que as pessoas não contam mais com um corretor gramatical, que existia em versões anteriores do Word 2007, mas hoje não existe no mesmo nível.

12. Em um vídeo postado no YouTube feito para a Campus Party você fala sobre o aplicativo ‘’Isso não é uma gramática’’, o primeiro aplicativo de sociolinguística do Brasil. Sendo assim, por que você achou importante que um aplicativo como esse fosse desenvolvido? Como ele pode auxiliar na educação dos estudantes brasileiros e mudar a interação professor-aluno dentro de sala de aula?


Um aplicativo rompe a barreira do espaço. Um material didático impresso fica limitado a uma sala de aula. Já o aplicativo pode ser usado fora da sala de aula e em mais de um desses ambientes.

13. Vimos que na sua formação há passagem pelo Gerativismo, há alguma possibilidade de convergência com a Sociolinguística, essas teorias poderiam ser vistas como complementares, ou são mutuamente excludentes?


Acredito que uma convergência é possível desde que haja um entendimento melhor do que possa ser a faculdade da linguagem. Além disso, essa convergência depende das pessoas, e depender de pessoas é um obstáculo e tanto para qualquer empreendimento.

14. Na nossa pesquisa também observamos que há um interesse por formas não só de popularizar a Linguística, mas também de inovar em termos de metodologias de ensino. Com base nisso, como você vê as Metodologias Ativas aplicadas ao ensino de Linguística e de Línguas em geral?


Vejo como algo positivo, mas se o trabalho não puder ser reproduzido, disseminado e utilizado em outros espaços que não a sala de aula e por pessoas que não o público escolar, pode não atingir os objetivos a que se propõe.

15. Que palavras você poderia deixar para os alunos e professores iniciantes interessados em fazer pesquisa em Sociolinguística?


Que incluam em suas pesquisas o item divulgação. E que essa divulgação aconteça porque é natural e importante. E que as pesquisas se voltem para questões que são importantes para a sociedade. Por fim, não só os iniciantes em sociolinguística mas em qualquer área da linguística devem prestar atenção no que está sendo feito de pesquisas sobre língua fora da universidade, em empresas como Google, Facebook, etc.

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Agradecemos ao professor Dr. Ricardo Joseh pela disponibilidade em responder nossas perguntas.

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