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Entrevista: Professora Dra. Raquel Freitag (UFS)

Entrevista realizada por: Darluzi Ehle, Manuela Macena e Roma de Castro (Letras - UFPB)


1. Existe, dentro da linguística, um número de subáreas para se escolher, assim como linhas de pesquisas. Quais motivos lhe levaram a escolher a Sociolinguística? Pode contar um pouco da sua trajetória acadêmica até chegar aqui?


Escolher é uma palavra pouco adequada. Acho que assim como os demais pesquisadores, eu cheguei onde cheguei pelas disponibilidades que existiam, e não por escolhas. Como a maioria dos alunos de Letras (pelo menos dos que eu conheço), eu entrei no curso porque gostava de literatura... Mas como poucos alunos de Letras (pelo menos dos que eu conheço), eu também gostava de latim, e tinha particular curiosidade em saber o que aconteceu entre o latim e o português. E por esses caminhos eu fui chegando à sociolinguística. Ingressei na iniciação científica em um projeto de pesquisa maior, o VARSUL (Variação Linguística na Região Sul do Brasil), na Universidade Federal de Santa Catarina, mas especificamente trabalhando com funcionalismo e níveis gramaticais mais altos, com marcadores discursivos, por conta da orientadora que me acolheu (e me suportou até o doutorado). No mestrado e no doutorado eu continuei a trabalhar em interface de mudança linguística e explicações funcionais. Eu me assumi na sociolinguística quando tive que alçar a pesquisa solo, quando entrei na Universidade Federal de Sergipe como professora, e me deparei com uma realidade sociolinguística diferente do meu “normal”. E precisei me reinventar para lidar com essa realidade.


2. O que cabe a Sociolinguística Variacionista apurar em suas pesquisas? Poderia dar uma explicação breve sobre a Sociolinguística que seja compreensiva para pessoas que não são do ambiente acadêmico linguístico?


Em termos bem simples, a sociolinguística busca identificar os motivos que levam as pessoas a julgarem o que é falar normal e o que é falar diferente, e por que o normal para um é diferente para o outro, e vice-versa.

Para fazer isso, podemos descrever o uso linguístico de cada grupo de “normais” e sistematizar a sua gramática. Também podemos pedir para as pessoas dizerem o que elas acham que é normal e o que elas acham diferente.

Com os resultados, podemos ver o que é comum aos diferentes normais e o que é diferente. A partir disso, muitas coisas podem ser feitas, desde programas de educação em língua materna sensíveis a esses diferentes normais até ações comerciais para que as pessoas se sintam envolvidas com produtos, usando traços linguísticos para gerar proximidade.


3. A Sociolinguística é uma área relativamente nova em comparação a outras áreas, por conta da própria Linguística ser recente. Você acredita que ela deveria ser mais abordada em ambiente acadêmicos e no dia-a-dia? Quais dificuldades são encontradas na incorporação da Sociolinguística no ensino?


Vivemos uma crise na acadêmica, que produz ciência para si mesma. Para incorporar ao ensino, ou para entrar na pauta da mídia e ter adesão da sociedade, precisamos de ações de popularização da ciência, inclusive para a sociolinguística.


4. Qual a importância do tratamento estatístico para analisar variações e variáveis e como as variáveis não linguísticas influenciam ao analisar dados linguísticos?


A premissa da sociolinguística variacionista é de que a natureza do sistema linguístico é probabilística. Isso significa que a língua não é um conjunto de pergunta e resposta do tipo A ou B, certo ou errado. Naquele lugar, naquele contexto, com aquelas pessoas, quantos acham que é A e quantos acham que é B? Por isso, técnicas estatísticas necessariamente precisam ser incorporadas ao analisar dados linguísticos sob essa perspectiva.


5. Apesar da Linguística ter “nascido” há mais de cem anos, foi apenas nos anos sessenta que Labov viria a criar uma metodologia e uma teoria da variação, focando no fator social da língua. A metodologia proposta por ele evoluiu ou se alterou de alguma maneira? Se sim, por quê?


Não foi uma pessoa que criou, nem há certeza se há uma teoria de fato. A ciência de Newton dormindo embaixo de uma macieira e que tem uma epifania que vai revolucionar o mundo é uma ilusão. A sociolinguística é tributária da dialetologia (o orientador de Labov era dialetólogo), e incorpora aspectos dela. Ao mesmo tempo, outras pessoas estavam discutindo o viés social da língua, que pode ser traduzido de diferentes formas: uso, atitude, valor, mudança. A rigor, a metodologia não é nova, a roda já tinha sido inventada. Inquéritos são a base da dialetologia. Houve uma adequação da técnica para lidar com o urbano e com o diversificado (a dialetologia considerava, à época, o falante da “língua pura”, com o menos contato possível; a sociolinguística – ou melhor, o trabalho de Labov sobre a estratificação do inglês em Nova Iorque, nos anos 1960 – considera os diferentes contatos entre pessoas. O mundo muda, as pessoas se deslocam geográfica e socialmente, as tecnologias mudam. E a ciência muda também.


6. Como são coletados os dados e feita a análise na perspectiva da fonética e fonologia e como são selecionados os falantes? Como é o contato com eles?


Existem diferentes técnicas para constituir amostras sociolinguísticas. Uma delas é a da entrevista sociolinguística. Entrevistas são situações de maior formalidade, para qualquer pessoa. O entrevistador é uma pessoa nova, desconhecida, presumivelmente com maior hierarquia social, o que leva ao monitoramento, ao cuidado na escolha das palavras, gerando uma fala muito cuidadosa, que não reflete o modo como se fala no dia a dia. Partindo dessa constatação, o roteiro da entrevista sociolinguística foi desenvolvido com questões que instiguem o entrevistado falar e se desligar, evocando memórias, situações de risco, infância. Assim, a entrevista sociolinguística alterna momentos de maior e menor cuidado com a fala, maior e menor monitoramento. Como há um roteiro, a técnica pode ser replicada e os resultados advindos de amostras constituídas por essa estratégia podem ser comparados e permitir generalizações.

Mas essa não é a única estratégia de coletar dados. Hoje, por conta da tecnologia disponível, nunca se teve tantos dados linguísticos à disposição: falas públicas e privadas gravadas e compartilhadas, via Youtube, Whats app, etc. Novas amostras têm sido constituídas a partir desse material compartilhado.

Quem participa de uma entrevista sociolinguística? É um procedimento que leva de uma hora a uma hora e meia. Nem todo mundo se dispõe a colaborar, e as pessoas que colaboram são sempre as mesmas. Por isso, temos uma amostra de voluntariedade, que não necessariamente reflete a comunidade (pense por exemplo em campanhas de doação, nem todo mundo participa). Este não é um viés apenas da sociolinguística; as pesquisas em ciências humanas em geral são decorrentes deste perfil populacional. Por isso, as novas estratégias de constituição de amostras com dados públicos têm sido consideradas.


7. “No estudo de algumas variações fonológicas, as diferenças constatadas na linguagem de homens e mulheres foram muitas vezes atribuídas a diferenças no aparelho vocal. Você concorda que diferenças linguísticas entre os sexos possam ser devidas às diferenças biológicas?”(Retirado de Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação, 2017, p. 42)


Há diferenças que são biológicas e há diferenças que são resultado de construção social. Por exemplo, a fonação depende da glote, que é uma cartilagem. Fisiologicamente, existem diferenças entre as cartilagens de XX e de XY (perfil de cromossomos para o que convencionamos chamar de homem e de mulher), por conta da ação de hormônios. Então, sim, vai haver diferença decorrente da fisiologia, e que percebemos mesmo sem ser linguistas, como homem ter voz grave, e mulher voz aguda. Mas nem todos homens têm voz grave, assim como nem todas as mulheres têm voz aguda. Por isso a natureza probabilística do sistema.


8. Cabe ao sociolinguista detectar se há uma mudança linguística em progresso? Se sim, quais os artifícios necessários para que tal observação seja feita? E como detectar se tal mudança tem tendências a continuar ou não, se possível?


Qualquer falante atento de uma língua pode perceber mudanças em progresso. Uma gíria que era falada antigamente e agora não se fala mais, uma palavra da moda. A sociolinguística, enquanto ciência, desenvolve uma estratégia metodológica que possibilita coletar evidências empíricas dessa mudança. Não é apenas uma percepção intuitiva, decorrente da experiência; é resultado de método e que pode ser replicado. Para identificar uma mudança, é preciso comparar dois estágios de língua temporalmente distantes. Podemos fazer isso de modo real ou de modo virtual. De modo real, gravamos amostras linguísticas no ano de, por exemplo, 2010, e voltamos a gravar amostras linguísticas em 2020 (pode ser com as mesmas pessoas, ou com pessoas que tenham o mesmo perfil social). Comparando esses dois estágios de língua, podemos ver o que é estável e o que é variável, e a partir disso identificar mudança em progresso. Podemos, ainda, recorrer a uma estratégia temporal virtual, que decorre de uma hipótese de que depois da adolescência as pessoas estabilizam seu repertório linguístico. Assim, se gravarmos uma amostra com grupos de diferentes idades, mais jovens e mais velhos, poderíamos verificar repertórios linguísticos de diferentes períodos temporais, e verificar o que é estável e o que é variável. Este procedimento é conhecido como “tempo aparente” e é uma evidência mais frágil do que a estratégia em tempo real. Mas trabalhamos com o tipo de dado que é disponível conseguir naquele momento.


9. Quais são os softwares mais usados dentro das pesquisas sociolinguísticas?


Em princípio, não precisamos de um software para fazer pesquisa sociolinguística. Mas a automatização do trabalho, com a adoção de ferramentas computacionais, permite explorar conjuntos cada vez maiores de dados, que dão maior robustez à pesquisa e permitem generalizações mais seguras. Não foi com 5 ou 6 pessoas falando, foi com 500 ou 600, o que permite generalizar para uma comunidade, por exemplo.

Hoje, precisamos de ferramentas para o gerenciamento das amostras linguísticas (e o ELAN tem sido a mais utilizada; é gratuito e permite armazenar uma transcrição de áudio ou de vídeo alinhada, facilitando a busca de informações); e ferramentas para o tratamento estatístico dos dados, o que pode ser feito com software comercial, como o Microsoft Excel, IBM SPSS, ou software livre, como o R Project. Nos anos 1970, foi desenvolvido um aplicativo que realiza uma rotina: regressão logística com o cálculo de desvio da média ponderada, o Varbrul (e suas versões). Outros softwares também realizam regressão logística, e outros tipos de análise estatística inferencial, com outros tipos de testes, o que pode ampliar o poder explanatório e a robustez da análise.


10. Em nossas pesquisas, apuramos que o preconceito linguístico é um assunto muito discutido, pois ainda somos regidos de práticas pedagógicas dualistas, onde existe o certo e o errado na língua, denominando um padrão culto. Como devemos abordar a questão do preconceito linguístico dentro das escolas e devemos combater a noção do “certo” e do “errado” na língua?


O segredo para combater o preconceito, de qualquer natureza, é desnaturalizar a construção que o gera. Para isso, precisamos de descrições linguísticas para subsidiar os programas de ensino de língua materna. Apesar de fazermos isso na academia, ainda há um grande fosso entre a academia e a comunidade. Nossos resultados não chegam aos livros didáticos, não são pautados na mídia. Para resolver esse problema, é preciso investir em ações de popularização da ciência voltadas para as questões sociolinguísticas, enfatizando o princípio da natureza probabilística do sistema linguístico, que é a base da sociolinguística variacionista.


11. A sociolinguística, assim como o funcionalismo e teorias que focam mais no uso social da língua, nasceram como uma ruptura à linguística estruturalista, já que esta não conseguia cobrir os aspectos aqui mencionados. Você acredita que, dentro do modelo sociolinguístico atual, existem pontos a serem melhorados ou ele deixa lacunas importantes, assim como o estruturalismo, que a sociolinguística não consegue cobrir? Se sim, quais são elas, na sua opinião?


Eu não sei se houve ruptura (e em nenhuma das áreas da ciência em que o estruturalismo se desenvolveu). O fato é que todos os desdobramentos científicos da linguística decorrem da noção de estrutura, e a ciência sempre será lacunar. Então, sim, a sociolinguística, assim como toda a ciência, tem lacunas, porque não existe uma teoria de tudo. Cada teoria dá conta daquilo que se propõe dentro de seu programa. Algumas lacunas são decorrentes do programa propriamente, outras lacunas são decorrentes de tecnologia que ainda não existe. Por exemplo, como a variação linguística é processada? O que acontece no cérebro quando ouvimos um traço linguístico que não é natural para a nossa variedade? Hoje até podemos conseguir uma ressonância magnética para ver o cérebro, mas o processo não será natural, espontâneo (e não saberíamos diferenciar se a reação é decorrente do contexto do experimento ou da reação à variante). Mas um dia a tecnologia muda, barateia. Foi assim com os gravadores: no início dos anos 1970, eram a base de rolo de arame, um gravador portátil tinha o tamanho de uma mala de viagem. Conseguir dados espontâneos com esse instrumental era difícil não só pelo efeito na atenção, mas também pelo custo. Hoje temos tecnologia para gravar no celular, com boa qualidade. E assim esperamos que aconteça, por exemplo, com os aparelhos de ressonância...


12. Em alguns artigos, você discorre sobre o uso dos marcadores discursivos na língua, argumentando que não deveriam ser chamados, segundo suas próprias palavras, de “vícios de linguagem”. Poderia explicar a funcionalidade e a importância de tais marcadores?


Marcador discursivo é um rótulo dado a elementos que acontecem na fala regular e ordenadamente, em todas as línguas. Ou seja, são elementos gramaticais. Não são abonados pela tradição normativa (ainda), mas têm regularidade e sistematicidade, então fazem parte da gramática. Há diferentes funções para os marcadores discursivos: planejamento, focalização, chamada de atenção, entre outras (e muitas precisam ser descritas ainda, é um bom campo de pesquisa). Uma pista de que uma pessoa é proficiente em uma língua estrangeira é quando ela começa a usar marcadores discursivos e no lugar certo! Sem marcador, a interação não avança, não é?


13. Existe alguma relação entre o gênero do entrevistador e o do entrevistado? Mulheres podem se apresentar mais nervosas quando entrevistadas por homens e vice-versa? Se sim, isso não apontaria para um distúrbio no estado natural da língua? Devemos levar em conta essa diferenciação de gênero/sexo como um fator nas pesquisas sociolinguísticas?


Existem relações de gênero na sociedade. Se existem na sociedade, elas se refletem na entrevista sociolinguística e interferem no resultado (por isso, precisam ser consideradas). Não pode ser chamado de distúrbio no estado natural das línguas porque o estado natural das línguas é esse: um grupo de mulheres conversa sobre determinados assuntos, mas se tiver um homem no meio, certos assuntos vão ser evitados, como, por exemplo, falar de menstruação, falar de outros homens. O mesmo se dá em com um grupo de homens. A simetria/assimetria de gênero nas interações é um fator que tem sido considerado como efeito nas análises sociolinguísticas, e que tem mostrado alguns resultados interessantes: por exemplo, na variação na expressão da 1a pessoa do plural, entre nós e a gente: entre mulheres, ocorre mais a forma a gente, entre homens, nós. Poderíamos pensar que isso vai contra o que se espera de mais normativo para as mulheres, mas também podemos entender que as formas nós e a gente codificam diferentes valores semânticos de especificidade e definitude.


14. Que palavras você poderia deixar para os alunos e professores iniciantes interessados em fazer pesquisa em Sociolinguística?


Em um país continental, com diferentes culturas em contato, a diversidade é a norma. O campo da sociolinguística é inesgotável e cada vez se fazem mais necessários os estudos que enfoquem a diversidade linguística.

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Agradecemos à professora Drª. Raquel Freitag pela disponibilidade em responder nossas perguntas.

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