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Entrevista: Professora Dra. Lilian Ferrari (UFRJ)

Entrevista realizada por: Alisson Alves, Isaque Moraes, Jurandir Barboza, Phelippe Messias, Rebeca Machado e Thainá de vasconcelos.


1. Professora, como alunos, percebemos que a Linguística é uma descoberta para muitos estudantes do curso de Letras. A maioria chega ao curso por causa da Literatura. Na Universidade, “descobre” o mundo da Linguística e acaba se interessando pela área. Fale-nos sobre sua trajetória acadêmica, se a linguística foi uma descoberta já na Universidade ou como ela entrou em sua vida e o porquê da Linguística Cognitiva (LC) como área de trabalho?

Minha trajetória acadêmica não foi das mais lineares. Na verdade, fiz graduação em Psicologia, na UFRJ. No curso de Psicologia, cursei a disciplina Psicolinguística, que era basicamente voltada para aquisição de linguagem, e fui apresentada à célebre polêmica entre o psicólogo behaviorista Skinner e o linguista Noam Chomsky. Essa foi a primeira vez que tomei conhecimento do campo da linguística, e no debate entre os dois estudiosos, os argumentos de Chomsky de que a imitação não explicava a aprendizagem de uma língua pela criança me pareceram particularmente bem fundamentados. Paralelamente a isso, havia uma pessoa da minha família que era formada em Letras e fazia o Mestrado em Linguística. Como era uma pessoa muito próxima, acabei tendo oportunidade de conversar bastante sobre a pesquisa que ela estava realizando, e meu interesse pela linguística foi aumentando. Terminado o curso de Psicologia, dirigi-me à Faculdade de Letras e me inscrevi em um curso de especialização que era oferecido à época, que incluía Linguística e Literatura. Ainda que as aulas de Literatura me encantassem, a paixão pela Linguística foi imediata. Assim, meu foco se voltou inteiramente para a área e, no final daquele ano, quando foi aberta a seleção para o Mestrado, não hesitei em me inscrever. Tendo sido aprovada, passei a desenvolver minha pesquisa sob a perspectiva do Funcionalismo Linguístico. Após a defesa da dissertação, ingressei no Doutorado, tendo me voltado para uma área afim, que era a Sociolinguística.

A Linguística Cognitiva só entrou na minha vida acadêmica depois do Doutorado, quando iniciei minha carreira docente na UFJF, e passei a fazer parte do grupo de pesquisa “Gramática e Cognição”, coordenado pela Profa. Dra. Margarida Salomão. Na verdade, os temas tratados pela Linguística Cognitiva dialogavam com muitos dos temas que haviam me interessado como estudante de Psicologia, tais como processos de categorização, inconsciente da linguagem, etc., assim como me permitiam aprofundar temáticas que já eram abordadas pelo Funcionalismo, como a questão dos processos cognitivos associados à linguagem. Hoje vejo que, não por acaso, o título da minha dissertação de Mestrado foi “Aspectos cognitivos da interferência da fala na escrita”, o que já caracteriza um interesse inicial nos temas com os quais trabalho hoje em Linguística Cognitiva.

2. Silva diz que “A linguística cognitiva se interessa pelo conhecimento através da linguagem e procura saber como é que linguagem contribui para o conhecimento do mundo’’. Podemos afirmar, a partir desse pensamento, que a LC está de acordo com a pedagogia defendida por Paulo Freire (Para Freire, leitura da palavra-mundo antecede a leitura da palavra escrita)?

Para a Linguística Cognitiva, a relação entre linguagem e mundo é sempre mediada pela cognição. Com base na vertente filosófica denominada Realismo Experiencialista, o que se propõe é que a linguagem não constitui um reflexo do mundo em si, mas promove processos de categorização e recategorização que permitem uma re-construção criativa da realidade. Sendo assim, embora não questione a existência do mundo real, a Linguística Cognitiva parte da premissa que nosso acesso à realidade é inerentemente condicionado por nossas habilidades sensório-motoras, constituição física específica e experiências socioculturais. Esse arcabouço teórico, na medida em que destaca a base experiencial da cognição humana, apresenta, com certeza, grande compatibilidade com a pedagogia defendida por Paulo Freire.

3. Em que medida podemos caracterizar a linguagem como fenômeno cognitivo?

Desde a chamada revolução cognitivista promovida por Noam Chomsky, a linguagem tem sido estudada como um “espelho da mente”, de modo que o interesse pelo estudo da linguagem está intimamente relacionado ao interesse pela investigação da cognição humana. A Linguística Cognitiva não foge a essa tradição, até porque tem, entre seus fundadores, estudiosos inicialmente vinculados à Teoria Gerativa. A divergência em relação a proposta gerativista é a questão da modularidade. Enquanto a Teoria Gerativa propõe que a linguagem constitui um módulo autônomo em relação a outros módulos cognitivos como percepção, raciocínio matemático, etc., a Linguística Cognitiva aposta na não-modularidade, de modo que prevê que os mesmos princípios que atuam na percepção, por exemplo, podem também atuar no raciocínio matemático ou na linguagem. No que se refere à linguagem propriamente dita, enquanto a Teoria Gerativa define os diferentes níveis de análise (sintaxe, fonologia, etc.) como módulos independentes, a Linguística Cognitiva adota uma perspectiva conexionista.

4. Fale-nos como a LC pode ser fundamental para o ensino-aprendizagem de uma língua (materna ou estrangeira).

Essa pergunta pode ser respondida de modo semelhante ao que respondi na pergunta 2. Por destacar a base experiencial da cognição humana, a Linguística Cognitiva possui um amplo instrumental teórico, que pode ser direcionado para o ensino-aprendizagem de línguas.

5. A Teoria dos Espaços Mentais, juntamente com a gramática de construção podem ser abordadas em sala de aula? Se sim, de que forma?

A Teoria dos Espaços Mentais e a Gramática de Construções disponibilizam conhecimentos importantes e inovadores em relação à descrição e explicação do fenômeno linguístico. A abordagem em sala de aula, entretanto, vai depender do objetivo do ensino e do público a que se destina. Na graduação em Letras, os alunos podem aprender os conceitos que fundamentam essas teorias como instrumental para a atividade futura em sala de aula, usando esses conceitos como subsídios para a preparação de aulas e elaboração de material didático tanto no ensino de língua materna quanto de língua estrangeira.

6. No livro “Introdução à Linguística Cognitiva” (FERRARI, 2011), estabelece-se como prioridade o compromisso didático do texto, no intuito de se disponibilizar um material prático e acessível aos interessados na área de Linguística Cognitiva, marcada pelo forte caráter interdisciplinar. Para você, qual a importância desse acesso a matérias desse tipo para aqueles que estão começando a adentrar na área da linguística?

Minha motivação principal ao escrever o livro foi justamente facilitar o acesso ao referencial teórico da Linguística Cognitiva, através de um texto didático em língua portuguesa. Como a área apresenta uma vasta bibliografia em língua inglesa, o acesso a esses textos nem sempre é fácil, principalmente para alunos de graduação. Além disso, a Linguística Cognitiva é composta por vertentes inter-relacionadas, e a reunião dos principais aspectos de cada uma delas em um único livro me pareceu importante para orientar aqueles que têm um primeiro contato com a área.

7. No capítulo 3 (FERRARI, 2011), intitulado “Frames e modelos cognitivos idealizados”, são apresentadas duas teorias que indicam a interação da estrutura linguística e os sistemas de conhecimento não linguísticos, oriundos da experiência física e sociocultural. Como se dá essa interação?

Frames e Modelos Cognitivos Idealizados são estruturas de conhecimento, armazenadas na memória de longo prazo, e compartilhadas pelos falantes de uma língua. Retomando a metáfora usada por Gilles Fauconnier, palavras e expressões constituem a “ponta do iceberg” da construção do significado. Isso quer dizer que essas estruturas linguísticas ativam muito mais informação do que o que está diretamente codificado formalmente. Por exemplo, ao ouvirmos que alguém comprou um livro, sabemos, também, que houve um vendedor, um valor pago pelo livro, etc. Mesmo que essas informações não tenham sido explicitadas na sentença, a partir do verbo “comprar”, ativamos o frame de “cena comercial”, que faz parte de nossa experiência sociocultural.

8. No capítulo 5 (FERRARI, 2011), intitulado “Metáfora e metonímia’ é apresentado que “a diferença entre metáfora e metonímia, portanto, reside no fato de que a primeira envolve projeção entre dois domínios que não são parte de um mesmo domínio-matriz”. Entretanto, no texto também diz que, embora existam casos claros de metáfora e metonímia, não há sempre uma distinção nítida o suficiente para identificar onde termina uma e começa a outra. Para você, como podemos identificar o uso de cada uma delas e onde reside essa dificuldade de demarcar a distinção clara entre uma e outra?

Como acontece com as categorias em geral, há casos prototípicos de metáfora, em que se verificam projeções analógicas, e de metonímia, em que ocorrem associações por contiguidade. Entretanto, como exemplifico no capítulo 5, alguns casos foram tratados na literatura como metaftonímia, porque os dois processos podem ocorrer entrelaçados. É o caso da expressão “dar ouvidos a alguém”, em que o processo de acatar uma opinião é tratado como transferência física de um objeto de um doador para um receptor, caracterizando a metáfora do conduto; ao mesmo tempo, o uso do termo “ouvidos” é metonímico, já que se menciona o órgão associado à audição para referência ao processo cognitivo mais amplo de compreensão.

9. Como a LC explica a nova comunicação por aplicativos de mensagens de texto, sabendo que quem recebe a mensagem a interpreta a partir de suas emoções e cognição, pois é uma mensagem pessoal diferente de outras leituras.

As novas tecnologias impõem novos desafios aos estudos cognitivistas, ao mesmo tempo em que fornecem evidências para constructos teóricos já estabelecidos em Linguística Cognitiva. Por exemplo, a processo de mesclagem conceptual, que constitui um dos eixos da Teoria dos Espaços Mentais, pode ser recrutado para explicar o uso cotidiano do termo “vírus de computador”, como também pode explicar reações associadas à comunicação por WhatsApp. Nesse último caso, o aplicativo promove uma mesclagem entre conversação face-a-face e escrita, gerando expectativas associadas a ambos os domínios.

10. Como você vê atualmente a relação entre LC e a Linguística Funcional, pois vários trabalhos funcionalistas apresentam conceitos e análises com base em pressupostos da LC. O que há de convergente e divergente entre as duas áreas?

Como destacado por Ronald Langacker, o fundador da vertente teórica denominada Gramática Cognitiva, a Linguística Funcional e a Linguística Cognitiva estão perfeitamente alinhadas com relação à premissa de que a linguagem tem origem no discurso. Sendo assim, ambas as abordagens teóricas são bastante convergentes, e priorizam a investigação das relações entre forma e significado. Com relação ao significado, as duas correntes adotam caminhos um pouco diferentes, mas complementares: o funcionalismo enfoca mais diretamente aspectos relacionados a fenômenos discursivos, como estrutura informacional, enquanto a Linguística Cognitiva trata o significado em termos de estrutura conceptual.

11. Em relação ao Gerativismo, apesar da contraposição clara da LC, você diria que há possibilidade de se identificar alguma complementaridade entre as duas teorias, ou elas são mutuamente excludentes?

Os fundadores da Linguística Cognitiva são estudiosos atrelados, inicialmente, à Teoria Gerativa. George Lakoff, por exemplo, teve alguns insights importantes no decorrer de suas pesquisas no âmbito do modelo gerativo, com relação aos problemas analíticos decorrentes da hipótese da modularidade. A partir daí, participou do desenvolvimento da chamada Semântica Gerativa, que buscava criar espaço para a inclusão do significado no modelo. O fato de que a empreitada não tenha dado certo constituiu um passo importante para o futuro desenvolvimento de uma semântica cognitiva e da própria Linguística Cognitiva.

De qualquer forma, apesar de ter rompido com a hipótese da modularidade, advogando a inter-relação entre sintaxe e semântica (essa última, concebida como parte de um continuum que inclui a pragmática), a Linguística Cognitiva mantém a tradição cognitivista inaugurada por Noam Chomsky, que concebe a linguagem como “um espelho da mente”. A principal diferença é que, para a Teoria Gerativa, a cognição é modular, enquanto para a LC, os mesmos princípios que atuam na linguagem podem atuar em outros domínios cognitivos, da mesma forma que os mesmos princípios cognitivos podem atuar na sintaxe, no léxico e na morfologia, por exemplo.

12. Como explicar esse conhecimento da LC para um público leigo?

Quando se trata de Linguística, de um modo geral, nem sempre é fácil transmitir os conhecimentos que a área disponibiliza a um público leigo. Como apontado no primeiro capítulo do livro “Linguística no Século XXI”, que escrevi com os colegas da UFRJ Aniela França e Marcus Maia, há uma série de crenças socioculturais associadas ao termo “língua” que, por criarem expectativas relacionadas à normatividade, se distanciam dos objetivos descritivos e explicativos da Linguística. Além disso, os conceitos linguísticos, tal como os conceitos desenvolvidos por qualquer ciência, precisam muitas vezes de estudo aprofundado para serem adequadamente comprendidos. O mesmo pode ser dito em relação a qualquer teoria linguística, como é o caso da Linguística Cognitiva.

Apesar disso, todos podem ser beneficiados com o desenvolvimento de materiais didáticos para o ensino de língua materna e estrangeira que, como apontei anteriormente, podem ser desenvolvidos a partir do referencial teórico da LC. Outro desdobramento importante é o desenvolvimento de novas tecnologias, como a tradução automática e outros recursos computacionais, que derivam da parceria entre Linguística Cognitiva e Ciências da Computação.

13. Por fim, gostaríamos de suas palavras para aqueles iniciantes que desejam seguir na área da LC ou suas interfaces.

Em primeiro lugar, gostaria de dar as boas vindas aos iniciantes. Para aqueles que se interessam pelo estudo da linguagem humana, a Linguística Cognitiva é uma área fascinante, que permite descortinar um conjunto amplo de fenômenos, ocupando-se não apenas de sua descrição, mas também fornecendo explicações consistentes e bem fundamentadas. O primeiro passo seria procurar ter uma visão geral da área, através de livros e textos introdutórios, para, em seguida, buscar leituras mais específicas que permitam o aprofundamento em uma ou mais vertentes. Para aqueles que começarem a desenvolver pesquisas na área, é importante buscar leituras mais diretamente voltadas ao objeto de estudo, para tomar conhecimento do estado da arte e ter um panorama mais concreto de como a pesquisa que se inicia pode trazer contribuições para o conhecimento já desenvolvido em relação ao assunto. Por fim, é importante participar de congressos e eventos que permitam a interação mais direta e a troca de ideia com outros pesquisadores da área.

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Agradecemos à professora Dra. Lilian Ferrari pela disponibilidade em responder nossas perguntas.

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