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Entrevista: Professor Dr. Paulo Henrique Duque (UFRN)

Entrevista realizada por: Alisson Alves, Isaque Moraes, Jurandir Barbosa, Phelippe Messias, Rebeca Machado e Thainá de Vasconcelos (Letras-UFPB).


1. Professor, como alunos, percebemos que a Linguística é uma descoberta para muitos estudantes do curso de Letras. A maioria chega ao curso por causa da Literatura. Na Universidade, “descobre” o mundo da Linguística e acaba se interessando pela área. Fale-nos sobre sua trajetória acadêmica, se a linguística foi uma descoberta já na Universidade ou como ela entrou em sua vida e o porquê da Linguística Cognitiva (LC) como área de trabalho?

Pretendia cursar minha graduação na área, mas as instituições de ensino superior do interior do Rio de Janeiro não ofertavam o curso. Letras é o que havia de mais próximo, por causa das literaturas. Ingressei na Licenciatura em Letras (Português-Inglês e literaturas), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Valença-RJ. No curso, descobri que os aspectos linguísticos me agradavam mais do que questões relacionadas à estética, história e tendências literárias das obras estudadas. De processos de formação de palavras em Guimaraens Rosa, passando pela sintaxe em Clarice Lispector, a questões semânticas em Machado de Assis, minhas monografias denunciavam um gosto especial pela linguística. As notas medíocres em Literatura contrastavam com os excelentes resultados em Fonologia, Morfologia, Sintaxe, Filologia e Latim. Ao cursar as disciplinas de Linguística, identifiquei o campo sobre o qual queria estudar. Posteriormente, no curso de especialização em Linguística, conheci o professor Sebastião Votre, que me apresentou os estudos sobre gramaticalização e me motivou a ingressar no Mestrado em Linguística da UFRJ. Na UFRJ, sob orientação da Professora Maria Luiza Braga, desenvolvi e defendi minha dissertação de Mestrado sobre gramaticalização do item agora. No Doutorado, ao estudar o conectivo mas, conheci o modelo da Gramática de Construção e a abordagem cognitiva da linguagem. Como professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com o Professor Marcos Antonio Costa (ex-colega da UFRJ), fundei o grupo Cognição & Práticas Discursivas, cujos estudos buscam explicitar os mecanismos discursivos e cognitivos envolvidos na construção de sentidos e de visões de mundo.

2. Silva diz que “A linguística cognitiva se interessa pelo conhecimento através da linguagem e procura saber como é que linguagem contribui para o conhecimento do mundo’’. Podemos afirmar, a partir desse pensamento, que a LC está de acordo com a pedagogia defendida por Paulo Freire (Para Freire, leitura da palavra-mundo antecede a leitura da palavra escrita)?

De acordo com a pedagogia de Paulo Freire, as condições iniciais para aprendermos a ler se manifestam assim que começamos a dar sentido ao mundo que nos cerca. O entendimento de que experiências perceptuais e motoras servem de base para o desenvolvimento da leitura parece acomodar uma visão experiencialista de cognição e linguagem em que os conceitos a serem evocados durante a leitura são construídos a partir da interação do sujeito com seu ambiente físico e social. Essa concepção de leitura baseada no uso encontra pontos que convergem com alguns princípios da Linguística Cognitiva: para ambas abordagens, por exemplo, a significação é tomada como fenômeno primário; o significado linguístico não é dissociado do conhecimento de mundo; e tal conhecimento não é objetivamente refletido na linhagem. Em vez de espelhá-lo, a linguagem é um meio de interpretá-lo, (re)construí-lo e organizá-lo, refletindo, dessa forma, as necessidades, os interesses e as experiências dos sujeitos e de suas culturas.

3. Em que medida podemos caracterizar a linguagem como fenômeno cognitivo?

Antes de explicar em que medida a linguagem pode ser caracterizada como fenômeno cognitivo, convém esclarecer que entendo cognição como um sistema complexo cujas partes (corpo e ambiente) propiciam a modelagem de conceitos e a formação de visões de mundo. Trata-se de um sistema que se atualiza a cada nova interação com o ambiente físico e social, daí suas propriedades de adaptabilidade, dinamicidade e situacionalidade.

Da interação do corpo com o ambiente, emergem affordances (possibilidades de interação do corpo com o ambiente) cujas invariantes ficam registradas no cérebro como representações perceptuais ou esquemas de imagem, que definem conceptualmente possíveis relações entre organismo e segmentos do ambiente e entre os segmentos entre si, independentemente, de seu sentido cultural. Ex.: LONGE-PERTO, DENTRO-FORA, SOBRE-SOB, CENTRO-PERIFERIA, TRAJETOR-MARCO etc.

Da interação social (ou jogos de linguagem, isto é, situações de interação social pautadas no compartilhamento de atenção), emergem frames interacionais em que pistas linguísticas verbais e não-verbais enquadram entes, eventos e roteiros específicos do jogo de linguagem que está sendo executado. Ex.: em um PEDIDO DE INFORMAÇÃO, LÁPIS pode ser concebido como instrumento de anotação; em uma TRANSAÇÃO COMERCIAL, o LÁPIS pode ser concebido como mercadoria.

Dentro dessa visão ecológica de cognição, quaisquer elementos perceptuais (visuais, auditivos, olfativos, gustativos e/ou somestésicos) que integram um determinado circuito neural de frame o ativa por inteiro, como o cheiro da goiaba, o gosto da goiaba, o formato e a textura da goiaba, a cor da goiaba etc. evocam o conceito GOIABA, sinais acústicos da voz humana, sinais viso-espaciais de LIBRAS ou da escrita que passam a integrar esse mesmo circuito neural de frame também passam a ativá-lo, a palavra “goiaba” evoca o conceito GOIABA. A diferença entre esses dois modos de evocar um conceito é que, no primeiro, precisa haver um objeto próximo ao sujeito que o permita percebê-lo para, assim, ativar um circuito neural de frame. No caso da linguagem, precisamos ter acesso às pistas auditivas ou viso-espaciais que ativam um circuito neural de frame, sem que necessariamente a percepção direta do objeto conceptualizado seja necessária.

Aprendemos a usar essas pistas, em especial, ao participarmos de jogos de linguagem, desde bem pequenos, quando aprendemos a nomear, discriminar, imitar, categorizar etc.

4. Fale-nos como a LC pode ser fundamental para o ensino-aprendizagem de uma língua (materna ou estrangeira).

Aprender uma língua envolve conhecer suas construções, isto é, saber como, por meio de pistas linguísticas, seus conceitos são modelados e evocados em situações de interação. Envolve conhecer também as especificidades de seus jogos de linguagem: há o BREAKFAST AMERICANO e o CAFÉ DA MANHÃ BRASILEIRO; há o CASAMENTO BRASILEIRO e o CASAMENTO GREGO, por exemplo. Para além de seus aspectos lexicais e gramaticais, uma abordagem cognitiva pode fornecer as ferramentas e mecanismos para a construção de conceitos culturalmente instanciados.

5. Em seu artigo “O processo de simulação na construção do sentido em narrativas” (DUQUE, 2015) é explicado como simulamos mentalmente cenas complexas através da linguagem. Como podemos relacionar isso com o ensino da construção de sentido de textos em sala de aula?

Experiências perceptuais e motoras desempenham papel crucial na construção do sentido. Em linhas gerais, ao lermos ou ouvirmos enunciados, simulamos as cenas relatadas; e essas simulações mentais incluem (a) detalhes motores característicos do efetor utilizado para realizar as ações relatadas; e (b) detalhes perceptuais sobre a trajetória, a localização e a direção do movimento. Tais simulações podem ainda revelar especificidades sobre formatos, dimensões, pesos e texturas dos objetos descritos.

Saber que pensar, imaginar, usar a linguagem equivale a simular, isto é, ativar circuitos neurais que também usamos quando, de fato, percebemos coisas e eventos ou agimos no mundo podem fornecer insights para propormos metodologias de ensino para a compreensão e interpretação de textos. Com base nesse conhecimento, o sucesso da compreensão e da interpretação da leitura depende de estratégias didáticas que considerem (a) o conhecimento linguístico do leitor (domina o vocabulário usado no texto? Conhece as estruturas sintáticas adotadas no texto? etc.); (b) possui conhecimento prévio suficiente para a compreensão do texto (frames); (c) é capaz de emular frames (na compreensão de conceitos que se distanciam de experiências corporificadas, como SOCIEDADE, JUSTIÇA, IDEOLOGIA); e (d) é capaz de entrelaçar frames (na compreensão de conceitos integrados linguisticamente, por exemplo, o conceito ESTÁTUA é ativado pela expressão “leão de pedra”, mas não pelas palavras “leão” ou “pedra”).

Ao ser capaz de caracterizar o processo de simulação relevante para determinada leitura, o professor passa a atuar pedagogicamente de forma precisa nos aspectos que prejudicam a compreensão e a interpretação de textos.

6. Quais seriam os processos postulados pela semântica da simulação?

A semântica da simulação pressupõe a existência de 3 processos, que não ocorrem necessariamente de forma linear: (a) análise construcional, processo responsável pela identificação das construções que são instanciadas pelas pistas linguísticas e pelo estabelecimento do modo como as construções levam à produção de uma “especificação semântica”, por meio da identificação e da conexão entre esquemas (por exemplo, “entrar em casa” ativa os esquemas ORIGEM-CAMINHO-META, TRAJETOR-MARCO e CONTÊINER, sendo que o componente meta, do primeiro esquema, corresponde ao componente interior, do terceiro esquema. No caso, este terceiro esquema, CONTEINER, corresponde ao componente marco, do segundo); (b) resolução contextual, responsável pela projeção de objetos e eventos da “especificação semântica” nos contextos comunicativo e discursivo correntes, produzindo, assim, uma “especificação semântica resolvida” contextualmente (por exemplo, em “entrar em casa”, o TRAJETOR pode ser preenchido com PROFESSOR, mencionado anteriormente no discurso); e (c) simulação corporificada, responsável pela evocação de estruturas corporificadas dinâmicas através da “especificação semântica resolvida”, fornecendo, assim, as inferências adequadas ao contexto (por exemplo, se o professor entrou em casa é porque ele estava do lado de fora, em algum lugar que poderá vir a ser especificado ao longo do discurso).

7. No modelo de compreensão da linguagem baseado em simulações (DUQUE, 2014), qual o papel que as construções gramaticais desempenham?

As construções gramaticais participam da compreensão conectando os esquemas de diferentes maneiras e evocando sentidos específicos para cada tipo de conexão. Assim, quando ouço ou leio “João devolveu o livro à bibliotecária”, dentre outras coisas, a construção X CAUSA Y RECEBER Z, evoca o sentido de TRANSFERÊNCIA-DE-POSSE e determina que é o EMISSOR (João), o RECEPTOR (a bibliotecária) e OBJETO TRANSFERIDO (o livro).

8. No processo de aquisição de uma nova língua, ao entrar em contato com um falso cognato o qual o interlocutor não conhece, como se dá o processo de construção de significado a partir dos frames? É possível dizer que a associação do falso cognato com um significado produzido para ele pela língua materna, e não pela nova língua, se dá por uma suposta “limitação” nos frames na L2?

Essa falha tem relação com o desconhecimento de determinado item lexical. Fazemos isso quando associamos determinada parte de uma palavra desconhecida com um indexador já conhecido. Por exemplo, muitos alunos de Linguística associam o conceito PARADOXO à palavra “paradigma”.

9. Como a LC explica a nova comunicação por aplicativos de mensagens de texto, sabendo que quem recebe a mensagem a interpreta a partir de suas emoções e cognição, pois é uma mensagem pessoal diferente de outras leituras.

Eu, particularmente, explico qualquer tipo de interação social por meio de jogos de linguagem. Dessa forma, somos capazes de identificar os movimentos característicos de um determinado jogo de linguagem e analisar o frame interacional subjacente à execução do jogo. Essas informações são relevantes para entendermos os mecanismos de construção de sentido específicos do jogo em execução. Apesar de os frames serem diferentes, por se formarem de diferentes experiências, não podemos concebê-los fora da interação social. Na fase de aterramento do ciclo semiótico de execução de um jogo de linguagem ocorrem esforços para que um foco de atenção seja compartilhado. Sempre que necessário, a fase de aterramento é retomada para que se garanta o sucesso da interação. Logo, o próprio jogo de linguagem possui ferramentas de negociação intersubjetiva de conceitos e intencionalidades.

10. Como você vê atualmente a relação entre LC e a Linguística Funcional, pois vários trabalhos funcionalistas apresentam conceitos e análises com base em pressupostos da LC. O que há de convergente e divergente entre as duas áreas?

Lato sensu, a Linguística Cognitiva é um modelo funcional, pois concebe a linguagem de forma não isolada do ambiente físico e social. No entanto, stricto sensu, as duas abordagens são muito diferentes. Na perspectiva cognitiva, a linguagem tem por função categorizar o mundo atribuindo-lhe sentidos. Logo, há o interesse em investigar como funciona esse processo de categorização.

A Linguística Funcional busca explicar, através do contexto discursivo, a motivação para os fatos da língua. Para isso, regularidades são observadas no uso interativo da língua, analisando-se as condições discursivas em que se verifica cada uso. Nesse sentido, os domínios da sintaxe, da semântica e da pragmática são relacionados e interdependentes. Ao lado da descrição sintática, procura investigar as circunstâncias discursivas que envolvem as estruturas linguísticas e seus contextos específicos de uso.

Para a Linguística Cognitiva, não há como falarmos na existência de instâncias que possam ser associadas entre si e/ou à estrutura da língua, uma vez que os domínios cognitivos são difusos e fortemente integrados, de modo que os mesmos componentes neurais dedicados à percepção e ao movimento são ativados quando falamos em coisas e ações. Nesse enquadre, qualquer tentativa de separar léxico, gramática, semântica e pragmática, mesmo que para ratificar sua interrelação e interdependência, não condiz com os pressupostos da Linguística Cognitiva.

A noção de gramática assumida pela Linguística Cognitiva considera unidades linguísticas (de morfemas a expressões linguísticas mais amplas) como pistas linguísticas que evocam e modelam conceitos e visões de mundo. Logo, o aspecto gramatical em si não é relevante para a abordagem cognitiva, nem o modo como a estrutura linguística é forjada por pressões socioculturais, mas sim, o modo como determinados tipos de relações intra e entre palavras contribuem para a precisão dos sentidos modelados. Interessa-nos sobremaneira o modo como sentidos mais distantes das experiências corporificadas são construídos por meio de metáforas; além disso, há um interesse especial para enquadramentos, perspectivações e perfilamento conceptuais.

Por fim, à medida que os corpora utilizados nos estudos em Linguística Cognitiva precisam possibilitar que se verifiquem mecanismos de conceptualização, eles precisam capturar ao máximo as situações de interação em que se inserem. O foco em itens linguísticos específicos só se justifica em termos de análise de sua contribuição para a precisão de sentidos e conceitos mais amplos.

11. Em relação ao Gerativismo, apesar da contraposição clara da LC, você diria que há possibilidade de se identificar alguma complementaridade entre as duas teorias, ou elas são mutuamente excludentes?

Há o caráter funcional lato sensu da Linguística Cognitiva que, apenas nesse aspecto, se assemelha à Linguística Funcional stricto sensu. Gerativismo e Linguística Cognitiva se distanciam justamente nesse aspecto. As duas teorias constituem perspectivas que enfocam a dimensão cognitiva da linguagem, mas são mutuamente excludentes em suas abordagens, pois divergem na metodologia, na visão de modalidade (amodal vs modal), na (in)admissão da modularidade da mente, na centralidade da sintaxe/semântica e no caráter minimalista/maximalista de suas abordagens.

12. Como explicar esse conhecimento da LC para um público leigo?

Devemos deixar claro para o público que estudamos as maneiras como os seres humanos constroem sentidos para suas vidas por meio da linguagem. E que o processo de construção de sentido começa na interação do bebê com o ambiente e se intensifica na interação social, quando desenvolvemos a linguagem, e passamos a fazer uso de meios cada vez mais complexos de modelar conceitos, como metáfora, metonímia e integração conceptual.

13. Por fim, gostaríamos de suas palavras para aqueles iniciantes que desejam seguir na área da LC ou suas interfaces.

A Linguística Cognitiva traz um conjunto de ferramentas teóricas que permitem investigar o modo como construímos sentidos e compreender como e por que temos diferentes visões de mundo. É uma teoria que dialoga com as ciências cognitivas, neurociências, inteligência artificial e filosofia. Logo, oferece um vasto campo de investigação não só para estudantes de Letras, mas também de outras áreas interessadas em linguagem e cognição. Para ingressar na Linguística Cognitiva, eu aconselho a leitura do livro:

FERRARI, Lilian. Introdução à Linguística Cognitiva. São Paulo: Contexto, 2011.

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Agradecemos ao professor Dr. Paulo Henrique pela disponibilidade em responder nossas perguntas.

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