Entrevista: Profa. Dra. Manuella Carnaval (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
- Karine Antunes
- há 21 horas
- 6 min de leitura
Entrevista em parceria com o Provale em Extensão da UFPB.
Manuella Carnaval é Professora Adjunta do Setor de Língua Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e docente do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas (PPGLEV-UFRJ). Graduada em Letras – Português e Literaturas pela UFRJ, desenvolve pesquisas na área de Linguística, com ênfase em Fonética Acústica e Prosódia Multimodal do Português do Brasil. Sua formação acadêmica inclui mestrado e doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da UFRJ, com apoio de agências como CAPES e FAPERJ, além de estágio de doutorado-sanduíche na Universidade de Tilburg, na Holanda, por meio do programa CAPES-PRINT. Desde 2011, integra o Laboratório de Fonética Acústica da UFRJ (LFA-UFRJ), onde atualmente atua como coordenadora, em parceria com o professor João Antônio de Moraes. Também é vice-coordenadora do grupo PROVALE (Grupo de Estudos em Prosódia, Variação e Ensino), vinculado à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de colaborar com grupos de pesquisa em Sociolinguística e interfaces na UFRJ. Sua trajetória acadêmica é marcada por contribuições relevantes aos estudos da prosódia, especialmente no que se refere à relação entre estrutura sonora, percepção e multimodalidade na linguagem.
A entrevista foi elaborada pelas discentes Isabelli Lacet, Maria José Delfino e Paloma Cristo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na disciplina de Fonética e Fonologia, ministrada pela professora Carolina Gomes da Silva e revisada pelas colaboradoras do Projeto Provale em Extensão, Letícia Freire e Paloma Cristo. As perguntas foram construídas a partir da leitura do artigo “Os domínios da focalização: um estudo experimental” (Carnaval, Moraes & Rilliard, 2022), publicado na revista Gragoatá.
1) Professora Manuella, o curso de Letras abre muitos caminhos ao longo da graduação. Aos poucos vamos descobrindo com quais temas nos identificamos mais. Você poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória profissional e como foi seu percurso na área de Letras até chegar à Linguística?
Primeiramente, gostaria de agradecer pela oportunidade de estar aqui interagindo com vocês. Considero de grande importância iniciativas como essa, para a contribuição na formação de jovens pesquisadores.
Meu percurso na área de Letras não foi linear. Depois de ter cursado um período de Engenharia Química, na Universidade Federal Fluminense, saí de lá com uma certeza: não me via atuando na área de exatas e precisava descobrir o que fazer. Ao retomar o contato com uma antiga professora de língua portuguesa, que sempre foi uma grande inspiração para mim, optei pelo curso de Letras: Português-Literaturas, muito mais interessada pelos estudos literários, que me fascinam até hoje. Não sabia que a Linguística iria me envolver tanto a ponto de escolher essa área como foco dos meus estudos. No segundo período da Faculdade, ao cursar a disciplina de Fonética e Fonologia da Língua Portuguesa com o Professor João Moraes, tive certeza de que seria com ele que trilharia meus passos como pesquisadora.
2) Você pesquisa o fenômeno da focalização em sua interface com a prosódia. Poderia falar um pouco mais sobre a sua pesquisa? Como foi o momento em que você percebeu que queria estudar prosódia e foco? Houve alguma situação acadêmica, profissional ou pessoal que despertou esse interesse?
Como tive alguns anos de Iniciação Científica com o Professor João Moraes, pude passear por diversos temas interessantes dentro da Prosódia, como expressão de emoções, atos de fala, duração, ressíntese, etc. No entanto, ao pensar no tema que gostaria de desenvolver para o Mestrado, me chamou atenção o estudo da Focalização, principalmente a partir do trabalho de Gussenhoven (2007), Types of Focus in English,que tratava de diferentes tipos de foco no Inglês a partir de seus diferentes valores semântico-pragmáticos. Chamou minha atenção como podemos tratar da função linguística e expressiva da prosódia em um mesmo fenômeno e como isso poderia ser descrito para o Português do Brasil.
3) No artigo “Os domínios da focalização: um estudo experimental” (Carnaval, Moraes & Rilliard, 2022), vocês optaram por usar fala de laboratório para ter maior controle experimental. Se considerarmos um futuro estudo com fala espontânea, quais seriam, na sua visão, os maiores desafios metodológicos e teóricos para identificar o domínio focal?
O maior desafio de um corpus com fala espontânea para esse tipo de fenômeno certamente é a não possibilidade de controle de todas as variáveis que conseguimos controlar em um corpus de laboratório, o que tornaria o estudo menos sistemático e de menor inferência estatística.
4) No texto, um dos aspectos interessantes do estudo foi a análise da modalidade audiovisual, especialmente fazendo uma relação com estudos anteriores em outras línguas. Você pode explicar um pouco mais sobre esse aspecto multimodal da fala?
A abordagem multimodal nos permite uma descrição mais ampla da prosódia das línguas. Eu adoto uma visão que considera que o canal visual está inscrito no sistema linguístico e atua de forma sincronizada à prosódia da fala. Logo, uma descrição multimodal é uma descrição mais completa da produção e percepção prosódicas dos falantes de uma língua.
5) Com relação aos resultados do artigo, vimos que o foco estreito, que recai sobre uma única palavra, foi percebido de uma maneira mais clara pelos ouvintes do que o foco complexo, sobre sintagma. Por que, na sua visão, o foco sobre palavras isoladas tende a ser mais perceptível? Isso tem relação apenas por se tratar de algo novo no enunciado? Essa preferência estaria ligada a alguma característica específica do português brasileiro, como, por exemplo, a sua estrutura sintática, prosódica ou, até mesmo, cultural? Ou seria um padrão universal, observado também em outras línguas?
Sim, nossos resultados indicam que o domínio do foco estreito, isto é, da palavra fonológica, é o domínio do foco no Português do Brasil. Isto ocorre porque, nesta extensão, os padrões focais se realizam de forma mais plena, tanto melódica quanto de duração, além de a porção pós-focal poder expressar expedientes prosódicos que auxiliam a percepção da porção focal. Não podemos dizer que se trata de um padrão universal, porque nosso estudo utiliza somente dados do Português do Brasil, mas podemos hipotetizar que extensões focais maiores dificilmente comportam os padrões prosódicos focais.
6) Um resultado curioso da pesquisa foi que ver a parte audiovisual não ajudou tanto quanto se imaginava. Isso surpreendeu vocês? Será que isso teria relação com a escolha do corpus? Ficamos pensando se, em um corpus de fala espontânea, a multimodalidade se faria mais presente e nos traria possivelmente outros resultados ou, até mesmo, novos desafios, como antes mencionado.
Este dado não nos impressionou tanto, porque o recorte desse artigo tratava de um aspecto bem linguístico, que era a extensão focal. Nossa hipótese sempre foi a de que a multimodalidade teria um papel mais relevante no objetivo de identificação dos valores semântico-pragmáticos de cada tipo de foco, objeto de estudo de outros artigos, aspecto mais expressivo da prosódia.
7) Na sua visão, variáveis como formação linguística, variedade dialetal e perfil sociolinguístico podem influenciar na forma como os ouvintes percebem diferentes tipos de foco prosódico? Vocês chegaram a observar alguma tendência nesse sentido durante a pesquisa?
Não, em nosso corpus, não houve uma diversificação no perfil social dos falantes. Mas acredito que algumas variáveis, principalmente escolaridade, podem influenciar na percepção dos valores semântico-pragmáticos da focalização,
8) Pensando na aplicação de testes perceptivos, na sua experiência, até que ponto ouvintes que não entendem muito de fonética, fonologia e prosódia, conseguem perceber e interpretar diferenças prosódicas sutis? Há pistas que são mais imediatamente compreendidas do que outras?
Acredito que tudo depende de como a tarefa perceptiva é montada. O design experimental deve ser elaborado levando em consideração o perfil dos juízes, em busca da melhor performance que eles possam oferecer ao realizar a tarefa. Por isso, todos os aspectos metodológicos devem ser muito bem pensados antes de aplicar o teste perceptivo em si.
9) Diante da leitura da sua pesquisa, surgiu a curiosidade sobre a aplicação da sua pesquisa a falantes de português como língua adicional ou língua estrangeira ou segunda língua. Você acredita que um falante de PB, como língua não materna, perceberia o foco da mesma forma que um nativo? Já pensou em investigar essa questão?
Nunca pensei em investigar falantes de PB como língua adicional, mas penso que é um bom objeto de estudo. Acredito que a percepção será diferente, especialmente em relação aos valores semântico-pragmáticos dos tipos de foco. As próprias diferenças culturais teriam uma influência nessa percepção.
10) O que você diria a jovens pesquisadoras e pesquisadores que estão começando a explorar a fonética, a fonologia e a prosódia? Há algo que você gostaria de ter ouvido no início da sua trajetória?
Eu diria que é uma área tão fascinante quanto trabalhosa. Que, para se chegar a resultados maravilhosos, passamos muito tempo coletando, sistematizando e analisando dados. Mas, no final, tudo vale a pena. A pesquisa experimental é braçal e feita a longo prazo, mas traz o empirismo científico clássico e nos dá confiança nos resultados a que chegamos. Em uma época em que tudo é feito por IA e chega de forma pronta em nossas mãos, escolher fazer esse tipo de pesquisa é ir na contramão, mas é extremamente formativo enquanto caminho para o pesquisador que deseja se tornar.
Agradecemos à professora Manuella Carnaval pela disponibilidade e pela partilha de conhecimentos.

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