top of page

Entrevista: Profa. Dra. Maristela Pinto (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)

Entrevista em parceria com o Provale em Extensão da UFPB.

A Profa. Dra. Maristela é formada em Letras – Português e Espanhol, com mestrado e doutorado em Letras Neolatinas. Sua trajetória acadêmica é marcada por uma atuação consistente nos estudos linguísticos do espanhol e na área de ensino e aprendizagem de línguas. Atualmente, é professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (IM/UFRRJ), onde desenvolve projetos que contemplam temas como fonética, entoação, dublagem, legendagem e inclusão de pessoas com deficiência, evidenciando uma abordagem ampla e interdisciplinar. Sua produção acadêmica tem contribuído significativamente para a formação de professores de espanhol como língua estrangeira, especialmente no que se refere aos estudos de prosódia e suas implicações pedagógicas.

A presente entrevista foi elaborada pelas discentes Débora Leticia de Paiva Silva e Paloma de Barros Moura Cristo, do curso de Letras-Espanhol da Universidade Federal da Paraíba, como requisito parcial para aprovação na disciplina de Fonética e Fonologia da Língua Espanhola. A tradução e a revisão foram feitas pelas colaboradoras do projeto “Provale em Extensão”, Mayra Suézia Oliveira dos Santos e Ana Beatriz da Silva Santos, com o objetivo de discutir a relevância da entoação no ensino-aprendizagem do espanhol, seus desdobramentos teóricos e aplicações no contexto educacional brasileiro.

Cabe destacar que essa é a primeira entrevista no portal do Linguisticamente Falando com uma pesquisadora da área da Prosódia da Língua Espanhola.

 

 

Em primeiro lugar, gostaria de parabenizá-las pela iniciativa da revista e de agradecer o honroso convite para participar como entrevistada do primeiro número. Espero poder somar nesse projeto, estimo que sejam números frutíferos e que a revista tenha vida longa.


1. Professora Maristela, considerando sua trajetória acadêmica e sua atuação em pesquisas sobre o espanhol e o ensino de línguas, o que a motivou a investigar a entoação nas diferentes variedades do espanhol e qual é a relevância desse campo para a formação de professores de espanhol como língua estrangeira?


Meu interesse pela entoação nas diferentes áreas do espanhol surgiu no final de minha graduação, entre 1999 e 2000. Na época, um curso de idiomas introduziu um software que avaliava a pronúncia do aluno, software esse similar aos sistemas de videokê. Embora parecesse interessante a proposta, linguisticamente não cabia, pois esse software limitava a “pronúncia correta” a uma única variedade, ignorando a riqueza dialetal da língua espanhola. A nota baixa no sistema, muitas vezes, não refletia ininteligibilidade, mas a diferença entre a variedade dialetal do aprendiz e a do programa. Esse dilema me levou a pesquisar, dentre as várias possibilidades de estudar a variação, a entoação em língua espanhola, objeto de estudo no qual me debruçava já em minha iniciação científica (IC), com foco na sociolinguística. Estudar a entoação dialetal é fundamental, pois variações entonacionais geram ruídos na comunicação, afetando a interpretação de perguntas, intenções comunicativas, sentimentos e emoções do falante. Esses ruídos podem ocorrer, pois a entoação, em língua espanhola, marca a modalidade da frase, a intenção comunicativa, as emoções e os sentimentos do falante e esta varia a depender de sua área dialetal. Como exemplo de ruídos, teríamos o caso de o falante estar perguntando algo para seu interlocutor, mas usar um contorno melódico diferente do esperado, por ser de outra variedade dialetal, e este não lhe responder porque não compreendeu o enunciado como pergunta, já o falante/emissor entenderá a falta de resposta como uma falta de educação por parte de seu suposto interlocutor. Outro exemplo concreto de possível ruído, seria o falante expressar uma dúvida e seu interlocutor entender como uma pergunta retórica e a comunicação ir por caminhos inesperados. Sendo assim, me parece crucial investigar como cada área dialetal da língua espanhola entoa e partilhar dito conhecimento em artigos e sala de aula de universidades e de escolas da Educação Básica.

 

2. Em seu artigo “O estudo da entoação nas variedades do espanhol: uma contribuição para a formação de professores de ELE”, a senhora destaca que a entoação desempenha funções linguísticas, sociolinguísticas e expressivas. Como essas diferentes dimensões podem ser trabalhadas de forma integrada no ensino do espanhol como língua estrangeira?


A entoação é um marcador crucial de modalidade, intenção comunicativa, sentimentos e emoção no espanhol, sendo altamente influenciada pela variação dialetal. Desse modo, o ensino-aprendizagem de Espanhol como LE deve, consequentemente, integrar esses elementos. Normalmente, os materiais didáticos trabalham, ainda que não de forma equânime, as habilidades de compreensão e produção oral e escrita, mas, infelizmente, as atividades voltadas para as habilidades de compreensão oral, são praticamente nos moldes das de compreensão escrita, embora com textos orais, mas sem explorar, de fato, especificidades da oralidade, da pronúncia, dos sotaques. Contudo, esse seria o momento propício e adequado para fazê-lo. Seria muito produtivo para se desenvolver a competência linguística oral dos aprendizes de Espanhol como LE se as questões de compreensão oral focassem em identificar como se produz uma pergunta total, por exemplo, na variedade de Buenos Aires e como se produz na variedade de Castela, e nas demais variedades. Em identificar como se marca o foco nas frases. Em como se entoa quando o falante de uma determinada área está com raiva, e como seria essa entoação se o falante fosse de outra área. É imprescindível analisar como a entoação se comporta em diferentes áreas, seja nas funções linguísticas, nas sociolinguísticas e nas expressivas. Dessa forma, o aprendiz trabalharia a percepção e, posteriormente, produziria o contorno melódico adequado com seu interlocutor, garantindo uma interação eficaz e livre de ruídos.

 

3. A percepção da entoação pode contribuir para o desenvolvimento da sensibilidade intercultural dos alunos? Como isso ocorre no processo de aprendizagem?


Muitas vezes negligenciada, a percepção da entoação é crucial para o desenvolvimento da sensibilidade intercultural do aprendiz, visto que a percepção da entoação capacita o aprendiz a ir além do significado literal da frase, compreendendo as nuances emocionais e culturais do falante, fomentando a empatia e reduzindo mal-entendidos. Como um “espelho cultural”, a entoação carrega padrões prosódicos únicos de cada língua e variedade dialetal. Ao reconhecer esses padrões melódicos, ou seja, ao reconhecer a modalidade de frase, as atitudes, a intenção comunicativa, o sentimento e/ou a emoção que o falante está expressando, o interlocutor evita estereótipos — como julgar um falante apenas como agressivo ou afetuoso — e passa a entender a especificidade daquela comunidade de fala. Isso resulta em uma escuta ativa, sem julgamentos e com maior competência intercultural.

 

4. De que maneira a prosódia, especialmente a entoação, pode influenciar a interpretação de aspectos sintáticos, semânticos e discursivos nas diferentes variedades do espanhol?


A entoação desempenha funções cruciais na sintaxe, na semântica e no discurso. No que concerne aos aspectos sintáticos, a entoação resolve ambiguidades, indicando — por meio de pausas e contornos finais — o início e o fim das orações. Além disso, é o elemento prosódico que marca o foco da frase (a informação mais importante), funcionando em conjunto com a ordem das palavras. No que concerne a aspectos semânticos e pragmáticos, a entoação atenua o impacto de pedidos ou críticas; afinal, mais do que o conteúdo falado, importa a forma como se diz algo e isso está relacionado à frequência fundamental (F0) e à intensidade. Por fim, no que tange aos aspectos discursivos, a entoação ajuda a organizar o discurso, sinalizando, por exemplo, informações novas ou compartilhadas. Como se vê, a prosódia — em especial a entoação — possui interface direta com a sintaxe, a semântica e a análise do discurso. Ela não é apenas “melodia”, mas um sistema funcional que organiza enunciados, estrutura sentidos e indica a intenção comunicativa, agindo como componente suprassegmental em diversos níveis linguísticos.

 

5. Considerando as atividades didático-metodológicas propostas em seu artigo, como os professores podem adaptá-las a diferentes níveis de proficiência e à diversidade das variedades do espanhol?


É fundamental que o professor apresente a mesma frase nas modalidades assertiva e interrogativa, evidenciando como a entoação diferencia o sentido. Em seguida, deve-se abordar as variações de contornos melódicos (perguntas totais, parciais ou disjuntivas) de acordo com a área dialetal, permitindo que o aprendiz compreenda que diferenças dialetais na entoação podem gerar ruídos na comunicação. A abordagem didática deve seguir uma progressão, passando pela descrição dos contornos, treinamento perceptivo e produção calcada na atenção, com atividades progressivas, ou seja, sempre do nível menos complexo ao mais complexo, garantindo que os estudantes se apropriem do conhecimento e o apliquem na prática.

 

6. De que forma as novas tecnologias de comunicação e os textos multimodais impactam as práticas de leitura e o ensino-aprendizagem de línguas na atualidade?


Ler hoje vai além das palavras, uma vez que vivemos em uma era multimodal na qual charges, vlogs e memes, por exemplo, demandam a interpretação conjunta de som, imagem e texto. Trazer essas tecnologias para a sala de aula desperta o interesse dos estudantes, promovendo um ensino-aprendizagem ativo, criativo e colaborativo. Mais do que acessar materiais diversos, a tecnologia permite o ensino híbrido e a personalização de experiência de aprendizado, adaptando-se a diferentes ritmos. Nosso papel fundamental como educadores é o de ensinar os alunos a lerem o mundo criticamente, utilizando todos os recursos semióticos à disposição.

 

7. Quais são os principais desafios enfrentados pelos professores de espanhol como língua estrangeira no ensino-aprendizagem da entoação?


Creio que o principal desafio reside na formação docente, visto que poucos profissionais têm em sua formação uma disciplina dedicada ao estudo da entoação e, consequentemente, não a levam para a sala de aula. Se os livros didáticos trouxessem questões que, de fato, explorassem a produção e a compreensão oral, os manuais pedagógicos indicariam como abordar esse conhecimento. Assim, mesmo com lacunas na formação, os professores poderiam se apropriar da entoação e ampliar seu repertório. Além disso, turmas superlotadas e a carga horária reduzida de espanhol dificultam o desenvolvimento das quatro habilidades. Contudo, o importante é persistir.

 

8. Como os estudos de entoação e prosódia podem ser incorporados de maneira mais sistemática ao currículo de espanhol na Educação Básica?


Reforçando a questão anterior, a incorporação sistemática da entoação e prosódia ao currículo de espanhol básico é uma consequência natural quando o ensino-aprendizagem foca nas reais especificidades da oralidade. Ao levar gêneros orais diversos - como desenhos animados, animações, entrevistas, documentários, produções audiovisuais, canções, debates, discurso político, discurso religioso, entre outros - e explorar ritmo, intensidade, foco, modalidades, intenções comunicativas, atitudes, sentimentos, emoções…, os estudos prosódicos estariam inseridos de forma orgânica, significativa, contextualizada e real na sala de aula.

 

9. Que orientações a senhora ofereceria aos professores que desejam trabalhar a entoação de forma mais eficaz em sala de aula?


Para um trabalho eficaz em sala de aula, sugiro que os professores se debrucem na leitura de artigos da área, dos mais teóricos aos que trazem sugestões de aplicação do conteúdo, naveguem na rede, analisem atlas e mapas sobre a entoação e sua realização em diferentes variedades do espanhol, lancem mão de textos orais diversos em sua sala de aula e os analisem a partir das especificidades da oralidade, em especial, como se comportam os contornos melódicos dos enunciados em cada modalidade, intenção comunicativa, atitude, sentimento e emoção a depender da área dialetal do falante e como isso leva a mensagens/entendimentos distintos. Creio que, assim, seria um trabalho de qualidade, relevante e eficaz a ser levado para a sala de aula.  

 

10. Para finalizar, quais são suas perspectivas para o futuro do ensino-aprendizagem de espanhol no Brasil, especialmente em relação à valorização dos estudos de entoação e sua integração nas aulas de ELE?


Considerando que grupos de pesquisa em entoação de diferentes universidades brasileiras estão interconectados e empenhados em divulgar seus estudos, trazendo a temática para uma linguagem mais acessível, minha perspectiva é positiva em relação ao futuro do ensino-aprendizagem de espanhol como LE no Brasil. Esse cenário é reforçado pela busca por novas formas de partilha de conhecimento — além dos laboratórios — os estudiosos estão lançando mão das redes para divulgar e publicizar o conhecimento e trazê-lo mais pra perto da sociedade, pela crescente valorização da produção oral pelos estudantes e pela necessidade de uma comunicação clara no mundo globalizado, na qual a entoação é crucial para evitar mal-entendidos em negociações, contratos, relações diplomáticas, relações comerciais e acordos, estou otimista e esperançosa, afinal “esperançar é preciso!”.


 

Profa. Dra. Maristela Pinto
Profa. Dra. Maristela Pinto

Comentários


bottom of page