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Entrevista: Professora Dra. Maria Cristina Lobo Name (UFJF)

Entrevista realizada por: Rosilene de Sousza, Priscila Cézar, Helayne Mirelly, Luiz Gustavo, Isabelly Lima e Kennedy Matias (Letras - UFPB).


1. Professora Cristina, toda jornada acadêmica possui suas peculiaridades, com desafios e conquistas. Você poderia nos contar um pouco de como iniciou essa trajetória e quais acontecimentos fizeram com que você escolhesse a Psicolinguística como área de atuação?


Eu gostava muito de fonética e fonologia e pensei em seguir essa área. Quando entrei para o mestrado, comecei a trabalhar com a querida e saudosa profa. Eneida Bonfim, unindo fonética e fonologia e análise diacrônica do português, que também me interessava. Mas também estava fazendo uma disciplina com a profa. Leticia Sicuro Corrêa, Linguagem e Cognição, e adorei! A disciplina aguçou minha curiosidade científica, a turma era animada e interessada, e a professora nos instigava o tempo todo a refletir e ir além. No semestre seguinte, fiz a disciplina de Psicolinguística com a Letícia, que veio a ser minha orientadora, e abracei de vez a área, com a certeza que era a que eu queria seguir.

2. Quais os conceitos indispensáveis para se entender a Psicolinguística, seus alcances e seus limites dentro dos estudos sobre a linguagem humana?


Considero que, antes de tudo, devemos ter sempre em mente que a Psicolinguística entende a língua/gem como processo, que se ocupa dos processos mentais envolvidos na aquisição, na percepção, na compreensão e na produção da linguagem, que ocorrem no tempo, on line. Nesse sentido, é importante entender que esses processos requerem um conjunto de mecanismos cognitivos – linguísticos e não-linguísticos. Parece-me que alguns dos desafios da Psicolinguística advêm daí: buscar/manter a sua especificidade, trabalhando em interfaces com a Linguística, a Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia Cognitiva, Neurociências, nas Ciências Cognitivas de modo geral.

3. A Psicolinguística surge com a união da Psicologia e da Linguística, convergindo para compreender os processos que ocorrem na comunicação humana, no processamento e na aquisição da linguagem. De que forma essa junção contribui em estudos de casos patológicos, associados à comunicação?


Acredito que essa junção seja essencial, pois nos permite considerar tanto questões mais estritamente relacionadas ao conhecimento linguístico, à gramática internalizada, quanto questões relativas à representação e à implementação desse conhecimento. Tudo isso está envolvido quando usamos a/uma língua, mas dissociar um ponto de outro pode nos ajudar a entender melhor que fator(es) está/ão afetado(s) nos casos patológicos.

4. Que possibilidades ou métodos a Psicolinguística traz para identificar fatores que dificultem a decodificação linguística?


Como possibilidades, a Psicolinguística traz esse olhar da língua como processo, permitindo uma divisão em etapas e subprocessos. Para isso, ela se vale de metodologia experimental e de técnicas e tarefas experimentais específicas que permitem isolar um dado fenômeno, etapa e/ou subprocesso. Assim, podemos chegar a entender melhor o que dificulta a codificação e/ou a decodificação linguística.

5. As articulações teóricas pensadas no início da Psicolinguística ainda são aplicáveis nos dias atuais, se sim, com quais mudanças?


De modo geral, sim, são aplicáveis, revistas e atualizadas pelos avanços nas Neurociências, Psicologia Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento.

6. Atualmente, tendo em vista os grandes avanços relacionados à aquisição da linguagem, o processamento e a cognição, quais as contribuições da Psicolinguística na interface com a educação?


São muitas. Olhando especificamente para a aquisição da linguagem, podemos destacar, por exemplo, a relação entre o desenvolvimento perceptual do bebê e da criança pequena e o desenvolvimento de habilidades metalinguísticas posteriores, como a consciência fonológica, a morfológica. Desenvolvimento perceptual linguístico atípico pode predizer dificuldades posteriores nessas habilidades.

7. Quais dificuldades metodológicas um pesquisador da área da Psicolinguística pode encontrar no desenvolvimento de seus estudos?


Aqui no Brasil, a grande maioria dos pesquisadores da área vem de cursos de Letras, de Linguística, que não costumam oferecer disciplinas de estatística, metodologia experimental etc. Até mesmo disciplinas mais específicas de Psicolinguística não são muito comuns na grade curricular de muitos cursos, de modo que temos lacunas no percurso inicial de formação de pesquisadores na área, que podem afetar também o desenvolvimento de suas pesquisas em termos metodológicos. Dificuldades de acesso a equipamentos que ampliem a gama de técnicas experimentais disponíveis ao pesquisador também é um ponto crítico.

8. Quais são os projetos do NEALP? Poderia destacar algum?


Atualmente, temos projetos em andamento coordenados por pesquisadoras do NEALP, cobrindo um leque variado de temas e subáreas de interesse. Voltados especificamente para o processamento adulto, temos os projetos desenvolvidos pela Aline Fonseca: Processamento de sentenças e Foco: estudos de interface na Psicolinguística experimental e Componente prosódico na desambiguação de sentenças com estruturas sintáticas complexas. Tratando tanto do processamento adulto quanto da aquisição da linguagem, temos o projeto coordenado pela Mercedes Marcilese, Interfaces entre morfologia, sintaxe e conhecimento enciclopédico: aquisição, processamento e caracterização teórica do sentido não composicional, contando comigo e com Paula Armelin na equipe, além do projeto recém-concluído, coordenado por mim, Interfaces internas e externas na aquisição e no processamento adulto de L1 e L2: concordância e tópico/foco no PB, que agregou todas as pesquisadoras do NEALP e teve a parceria de pesquisadoras de outras IES. Como o título indica, o projeto Dependências não adjacentes na aquisição da linguagem, também coordenado por mim, se volta para aquisição da linguagem, particularmente, para etapas iniciais desse processo na aquisição típica por bebês. Temos, ainda, projetos de cunho não experimental, inseridos na Linguística Teórica: Revisitando o processo de Conversão Morfológica e Classes de palavras revisitadas: natureza categorial e estrutura funcional, coordenados pela Paula Armelin; e Evolução da produção de compostos na língua de sinais brasileira e Aquisição (a)típica da libras: avaliação de efeitos morfofonológicos em compostos, coordenados pela Aline Rodero-Takahira.

9. Por que o interesse dos estudos pela aquisição da língua com crianças desde a fase de bebês?


Durante muito tempo, os estudos experimentais na área sofriam de limitações técnicas para a investigação de etapas anteriores a um ano de vida, dois e até mesmo três anos de vida. Olhava-se sobretudo para a produção da criança e falava-se de período pré-linguístico, como se a criança só começasse a ter uma língua a partir do momento que começasse a falar. Hoje sabemos que o contato com uma língua começa antes mesmo do nascimento, ainda no ventre da mãe, no caso de crianças ouvintes de mães falantes de línguas orais. Mas ainda há muito a ser investigado sobre esse período inicial, em que o aparato perceptual do bebê está se desenvolvendo e sofrendo forte influência da(s) língua(s) à(s) qual/is está tendo acesso, para termos um melhor entendimento do processo de aquisição da linguagem, daí meu interesse. Além disso, há poucas pesquisas voltadas para essa fase desenvolvidas no Brasil e espero contribuir para o crescimento dessa área.

10. Sabendo que uma criança, em sua fase de aprendizagem, compreende ações e reações através da convivência em sociedade, sendo assim, a partir das pesquisas feitas em sua área, como ocorre o processamento da uma língua por essa criança?


Exatamente, o bebê/a criança adquire língua no convívio social, na interação criança-adulto, criança-criança e, indiretamente, adulto-adulto. Em termos estritamente linguísticos, o contato com a língua em uso leva a uma especialização das capacidades perceptuais do bebê, que se torna sensível a propriedades prosódicas, distribucionais e a outras pistas que lhe permitem segmentar os enunciados linguísticos em unidades menores, frases, sintagmas, palavras..., a reconhecer estruturas sintáticas, relações morfossintáticas... Aos poucos, a criança vai mapeando forma e significado e, para isso, mais uma vez, são fundamentais as reações e relações entre os participantes dessas interações.

11. Sobre o projeto “A Prosódia no processamento adulto e na aquisição da linguagem”, você poderia destacar os resultados obtidos e explicar a sua importância na perspectiva da Psicolinguística?


Esse projeto investigou a identificação de elementos de categorias lexicais – especificamente, N e ADJ – na aquisição e no processamento adulto do PB, tendo como foco propriedades prosódicas dos enunciados de fala que poderiam ser usadas por bebês, crianças e adultos falantes nativos. Dentre outras questões, buscamos responder se os enunciados produzidos por falantes adultos brasileiros apresentariam propriedades prosódicas facilitadoras do reconhecimento de elementos dessas categorias, se bebês seriam sensíveis a tais propriedades, e se crianças e adultos fariam uso delas na aquisição/no acesso lexical e no processamento sintático. Analisamos dados de Fala Dirigida à Criança (FDC) e de Fala Dirigida ao Adulto (FDA) e observamos marcadores prosódicos de fronteiras prosódicas (de I e de ϕ) e de categoria lexical (N ou ADJ), que são realçados na FDC. Esse realce pode ser um facilitador para a criança segmentar e separar o continuum da fala em unidades menores. Com efeito, os resultados dos experimentos de percepção com bebês apontaram para sensibilidade à diferença de contorno prosódico do DP, em função da posição de ADJ em relação a N (anteposto ou posposto) aos 7 meses, e à fronteira de Sintagma Entoacional aos 13 meses. Numa atividade de aquisição de novas palavras realizada com crianças de 2 a 3 anos, verificamos que o realce prosódico do novo adjetivo parece facilitar seu mapeamento a uma propriedade. Quanto ao processamento adulto, os resultados de uma série de experimentos sugerem um papel facilitador da prosódia no processamento de sentenças temporariamente ambíguas e na construção da estrutura sintática no curso do processamento. Esses resultados são frutos de dissertações e teses e foram apresentados em artigos, tais como Silva, Matsuoka, Araújo e Name (2013), e Silva e Name (2014). As dissertações e as teses, assim como os artigos, podem ser acessadas no site do NEALP.

12. O que seria e como se dá o fenômeno dos nominais NUS (bare nouns) em uma perspectiva experimental mencionado no projeto “Processamento as interfaces da gramática”?


Nominais nus ou nomes nus (NN) se caracterizam por não virem acompanhados de um determinante morfofonologicamente expresso, como em “Criança adora sorvete”. Há uma série de discussões na literatura em Semântica Formal e Experimental, relativas a sua (a)gramaticalidade, naturalidade ou grau de felicidade dos enunciados. Nosso foco foi o processamento, buscando discutir o fenômeno em termos de interfaces interna (sintaxe-semântica) ou externa (sintaxe-discurso/pragmática) à gramática. Investigamos a percepção, a compreensão e a produção de enunciados contendo nominais nus, singulares e plurais, topicalizados e focalizados, por falantes nativos do PB, em contraste com sintagmas determinantes (DP). De modo geral, nossos resultados experimentais apontaram para maior custo de processamento para nomes nus como sujeitos de sentenças episódicas, comparados a DPs na mesma posição (Atleta correu ontem de manhã vs. O atleta correu...) (MARTINS et al., 2017); para preferência por marcação de foco contrastivo no objeto através do uso concomitante de mecanismos prosódicos e sintáticos (NAME; MARTINS; PINTO, 2017; MARTINS; PINTO; NAME, 2016); para facilidade de produção de nominais nus do tipo kind (Baleia está em extinção), comparativamente aos tipos genérico e episódico, com um efeito de interação entre número (singular/plural) e aspecto semântico, apontando para uma vulnerabilidade na escolha do constituinte pré-verbal (SOUZA; NAME, 2018a; 2018b). Novamente, esses resultados decorrem de estudos conduzidos por orientandos de Iniciação Científica, de Mestrado e de Doutorado.

13. Como você vê a interface entre a teoria Gerativa e a Psicolinguística, há atualmente muita convergência? E em relação a perspectivas que focalizam a Aquisição da Linguagem com um olhar interacionista, poderíamos dizer que essas interfaces são complementares ou são mutuamente excludentes?


De modo geral, há convergência, na medida que ambas partem de uma perspectiva biológica e cognitiva da língua/gem. Mas não podemos ignorar que pode haver também tensões e divergências, quando se busca (ou não) uma compatibilidade com o modelo teórico de língua e modelos de processamento.

Quanto a perspectivas mais interacionistas e mais “estritamente linguísticas” para o estudo da aquisição, não as considero necessariamente excludentes. Ao contrário, defendo que somente agregando perspectivas “micro” e “macro” poderemos entender melhor o processo de aquisição de língua/gem.

14. Como você poderia explicar, em breves palavras, o que a área da Psicolinguística pesquisa, para que pessoas leigas compreendam e possam se interessar em conhecer mais?


A Psicolinguística estuda os processos que ocorrem em nossa mente quando usamos uma língua – na compreensão e na produção de enunciados – e quando aprendemos uma língua – quando criança ou já adulto, uma ou mais línguas; como armazenamos na memória nosso conhecimento linguístico, como o recuperamos e usamos, considerando a situação, a modalidade (oral ou visuogestual, escrita) e os participantes, dentre outros aspectos.

15. Que caminhos atuais os estudos da Psicolinguística vêm trilhando e que você acha interessantes?


No início, falei do desafio da Psicolinguística de manter sua especificidade trabalhando em interfaces com outras ciências. Mas é justamente isso que acho mais interessante, esse trabalho conjunto que vem se tornando cada vez mais necessário. Acredito que somente assim alguns aspectos do processamento linguístico poderão ser melhor ou efetivamente abordados.

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Agradecemos à professora Drª. Maria Cristina pela disponibilidade em responder nossas perguntas.

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