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Entrevista: Professor Dr. Marcus Maia

Entrevista realizada por: Maria Elizabeth Silva de Brito, Maria Paula Pereira de Carvalho, Sarah Narranna dos Santos (Letras - UFPB)


1. Professor Marcus, toda jornada acadêmica possui suas peculiaridades, com desafios e conquistas. Você poderia nos contar um pouco de como iniciou essa trajetória e quais acontecimentos fizeram com que você escolhesse a Psicolinguística como área de atuação?


Na verdade, o meu percurso acadêmico iniciou pela pesquisa na área de línguas indígenas. Por indicação de minha orientadora, a professora Yonne Leite, fui estudar a língua Javaé, na Ilha do Bananal, que tinha até então pouquíssimos estudos. O Javaé é um subgrupo do povo Karajá. Preparei-me antes da viagem a campo, tentando reunir os materiais existentes sobre esses povos, não só em Linguística, mas também em Antropologia. A Yonne trabalhava com um povo de língua da família Tupi-Guarani, o Tapirapé, que morava em aldeias próximas aos Karajá, na região do Rio Araguaia. Fazer pesquisa no início da década de 1980 não era simples, não havia Internet e para se conseguir ler alguma referência necessária era preciso ir à Biblioteca Nacional, ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, por vezes, até mesmo a instituições fora do estado. Enquanto eu me preparava da melhor forma que podia, a minha orientadora fez uma viagem aos Tapirapé e me trouxe uma fita cassete que ela mesma gravou com um rapaz Karajá, que morava em aldeia próxima aos Tapirapé. Mergulhei nos materiais e, finalmente, em julho de 1983, fiz minha primeira viagem de campo, aos Javaé da aldeia de Boto Velho, ao norte da Ilha do Bananal. Era uma aldeia de dificílimo acesso e após conseguir carona em caminhão da rodovia Belém-Brasília até a beira do rio Javaés, precisei ficar dois dias à espera de que alguma canoa com indígenas Javaés passasse ali naquela localidade perdida do Brasil profundo, que se chamava Barreira da Cruz. Passei algumas semanas na aldeia de Boto Velho, isolado do mundo, sem telefone, energia elétrica, nem rádio havia. Foi uma experiência marcante, meu “rito de passagem”, quando aprendi “na pele” a relativizar. Um dia, estava tomando notas sobre a língua sentado em baixo de uma árvore, quando um rapaz Javaé me perguntou se queria ir com um grupo pegar mel. Usando minhas referências urbanas, imaginei que pegar mel fosse como “um pulo até a padaria da esquina”, não contando que se trataria de uma expedição parte pelo rio, parte na mata, que durou três dias, da qual participei como estava, de calção e sandália havaiana, dormindo duas noites enterrado na areia na beira do rio. Na volta, a aldeia toda comemorou os potes de mel coletados e houve celebrações, “a festa do mel”, que durou toda a semana. Quando o mel acabou, alguém chamou a aldeia toda para uma pescaria em uma pequena lagoa formada pelas águas de um pequeno igarapé que baixara. Foi uma expedição animada de que participou praticamente a aldeia toda. A pesca ou caça, não sei, consistia em entrar na lagoa, pegar o que quer que pudéssemos e jogar para as margens. As crianças então iam recolhendo peixes, tartarugas, répteis que atirávamos para a margem. Até um pequeno jacaré foi pego. Era trabalho e festa ao mesmo tempo. Enfim, foi uma experiência única. No fim de julho de 1983, retornei ao Rio de Janeiro cansado e feliz com os dados preciosos que havia coletado em anotações e fitas cassete. O viés da minha pesquisa de mestrado era a tipologia de ordem vocabular e de marcação de caso. No estudo da bibliografia sobre esse tema, encontrei trabalhos como os de Comrie e de Hawkins, que propunham que a ordem de constituintes nas frases era sensível a fatores de processamento psicolinguístico. Foi aí que começou o meu interesse por essa fascinante disciplina. Acabei indo para o doutorado na University of Southern California, porque esses pesquisadores trabalhavam ali. Lá, em 1990, inaugurou-se um laboratório de Psicolinguística a que me juntei. Hoje, continuo a trabalhar com línguas indígenas e com Psicolinguística, mas as reuni em um projeto de pesquisa de campo experimental, em que métodos psicolinguísticos são usados no estudo de línguas indígenas, além da língua portuguesa.


2. Quais os conceitos indispensáveis para se entender a Psicolinguística, seus alcances e seus limites dentro dos estudos sobre a linguagem humana?


A dicotomia fundamental para entender a Psicolinguística é a diferença entre representação e processamento. Como diz Chomsky, as pessoas sabem coisas e fazem coisas. A Psicolinguística e suas teorias estudam os processos cognitivos em jogo na aquisição, compreensão, produção e perda da linguagem. São processos complexos que podem ser mensurados experimentalmente em seu curso temporal, contribuindo para entendermos a arquitetura da linguagem humana, contrastando teorias, explorando as interfaces com diferentes esferas ainda pouco conhecidas da cognição, como a memória e a atenção.


3. A Psicolinguística surge com a união da Psicologia e da Linguística, convergindo para compreender os processos que ocorrem na comunicação humana, no processamento e na aquisição da linguagem. De que forma essa junção contribui em estudos de casos patológicos, associados à comunicação?


Como disse acima, a psicolinguística também se interessa pelo estudo dos distúrbios. Em minha carreira, tive a oportunidade de pesquisar e orientar sobre o autismo de Asperger, o Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade e sobre a dislexia. Esses estudos naturalmente permitem fazer avançar o nosso conhecimento sobre essas condições, podendo contribuir para a sua prevenção e para terapias, mas também lançam luz sobre a representação e o processamento da linguagem, digamos, normais. Um exemplo clássico é o trabalho The man left without a trace: A case study of aphasic processing of empty categories, de Hildebrandt, Caplan & Evans, em que um estudo de caso com um paciente afásico sobre a identificação e coindexação de posições estruturais nulas permite aos autores argumentar em favor de teorias sintáticas que preveem a existência de categorias vazias.


4. Que possibilidades ou métodos a Psicolinguística traz para identificar fatores que dificultem a decodificação linguística?


Trabalhei pouco com decodificação propriamente. Tenho atualmente uma aluna no doutorado, a Mariana Fernandes, muito interessada em alfabetização, onde essas questões de decodificação são centrais e tenho estudado com ela esse nível. Obviamente, as teorias e métodos psicolinguísticos têm muito a contribuir nesse, como em outros níveis da organização linguística. A minha aluna está desenvolvendo um estudo de audição automonitorada (self-paced listening) , por exemplo, em que estuda o papel da prosódia na compreensão por crianças pré-alfabetizadas e em alfabetização. O trabalho será apresentado em poster da aluna na ABRALIN 50, agora no início de maio.


5. As articulações teóricas pensadas no início da Psicolinguística ainda são aplicáveis nos dias atuais, se sim, com quais mudanças?


Como disse acima o binômio representação x processamento baliza o campo desde o seu início, tendo havido ao longo desses cerca de 70 anos, desde a revolução cognitivista dos anos 1950, tensões, tentativas de unificação, redução e eliminação, mas creio que a proposta de um único sistema cognitivo com diferentes níveis de aferição é a mais adequada. Discuti mais detalhadamente este tema em um artigo publicado na Revista da Abralin em 2014 (https://revistas.ufpr.br/abralin/article/view/39612 ). Mais recentemente, retomei o tema no capítulo “O Problema de Descartes” do livro organizado por Gabriel Othero e Eduardo Kenedy, intitulado “Chomsky e a Reinvenção da Linguística”, que acaba de sair pela Ed. Contexto, vale ler.


6. Atualmente, tendo em vista os grandes avanços relacionados à aquisição da linguagem, o processamento e a cognição, quais as contribuições da Psicolinguística na interface com a educação?


Esse é um tema importantíssimo, necessário e urgente, tendo em vista as avaliações que demonstram as dificuldades enormes da educação básica no Brasil. É claro que o problema não é só psicolinguístico e linguístico, mas sem dúvida, essas disciplinas têm contribuições a fazer para que a escola possa tornar-se um ambiente formador de cidadãos plenos, capazes de pensar, ler e expressar seus pontos de vista com clareza. Há muitas abordagens possíveis, mas em meu grupo de pesquisa, o Laboratório de Psicolinguística Experimental – LAPEX, da UFRJ (https://pt.wikipedia.org/wiki/Laborat%C3%B3rio_de_Psicolingu%C3%ADstica_Experimental_(LAPEX/UFRJ) , estamos investigando desde 2014, quando participamos da fundação da Rede Nacional de Ciência para a Educação (http://cienciaparaeducacao.org/ ), o processamento do período, que consideramos o building block de qualquer texto, ao contrário do que muitos linguistas preferem fazer, centrando o foco no gênero textual. A especialidade da Psicolinguística a que me filio chama-se Sentence Processing. E sentence é período. Ou seja, uma unidade que inicia com uma letra maiúscula e termina com um ponto. Praticamente quase todos os gêneros textuais são constituídos por períodos. Estudar esse nível, portanto, pode permitir trazer evidências empíricas cruciais para fazermos propostas educacionais relevantes. Parte dessa pesquisa pode ser conhecida no livro Psicolinguística e Educação que organizei em 2018 e também no website da Rede CpE (http://cienciaparaeducacao.org/blog/2017/03/13/conecta-eye-tracker-um-microscopio-para-ajudar-a-ler-e-escrever/)


7. Quais dificuldades metodológicas um pesquisador da área da Psicolinguística pode encontrar no desenvolvimento de seus estudos?


Não diria que são propriamente dificuldades. É preciso conhecer bem o método experimental, que requer um tipo de pensamento um pouco diferente do pensamento puramente teórico. Afinal, desde Galileu, pelo menos, a ciência consiste em observar, raciocinar e testar. Há diferentes tipos de testes que se pode desenvolver em psicolinguística, coletando informações durante ou após os processos, seja através de equipamentos sofisticados como rastreadores oculares, eletroencefalógrafos, métodos de imagem cerebral, seja através de simples questionários. O importante é que o projeto de experimento esteja bem fundamentado, com objetivos, hipóteses e materiais claramente definidos, bem como variáveis independentes e dependentes bem estabelecidas. Tenho dito que o pensar experimental, quando bem conduzido, pode contribuir também para o próprio pensar teórico que ganha muito em organização e precisão.


8. Sabendo que uma criança, em sua fase de aprendizagem, compreende ações e reações através da convivência em sociedade, como sucede, a partir de pesquisas feitas em sua área, para essa criança processar uma língua?


Minha pesquisa tem sido centrada principalmente no trabalho com adultos, mas acompanho com interesse a pesquisa em aquisição. Recomendo a leitura do livro de Charles Yang “The Infinite Gift – How Children Learn and Unlearn the Languages of the World”, sem dúvida um dos melhores livros, se não o melhor, que li sobre essas questões.


9. Quais considerações o senhor poderia fazer a um iniciante interessado na área da Psicolinguística?


Como disse na introdução do livro “Psicolinguística, psicolinguísticas”, os estudos psicolinguísticos vêm contribuindo decisivamente para que ampliemos nosso conhecimento sobre a linguagem humana, trata-se de uma ciência fundamental para entendermos quem somos. De todas as subáreas da Linguística, a Psicolinguística vem praticando o método experimental há mais tempo e hoje, em um momento em que a experimentação é um desafio para todas as demais especialidades da Linguística, a Psicolinguística tem, sem dúvida, muita conhecimento e experiência a oferecer.


10. Sobre o estudo de orações relativas e bilinguismo, apresentado em seu artigo A Compreensão de orações relativas por falantes monolíngues e bilíngues de português e de inglês, quais são as possíveis explicações para aprendizes adultos serem menos hábeis, em termos de processamento, numa segunda língua?


Após o período crítico, em torno de sete anos, a aquisição de uma segunda língua dificilmente será tão eficaz e rápida quanto a aquisição da primeira ou mesmo quanto à aquisição da segunda antes de sete anos. Esse é o fator crucial. Trata-se de uma área muito interessante onde se pesquisam questões como a transferência, a inovação, o compartilhamento de recursos entre as línguas na especialidade psicolinguística que Janet Nicol chamou “one mind, two languages”, aliás outro livro que recomendo.


11. Quais os resultados mais relevantes que você tem encontrado nos estudos sobre processamento da leitura em interface com a Educação, como eles podem dar um retorno em termos de possíveis intervenções e aplicações pedagógicas?


É um tema em que estamos trabalhando muito neste presente momento. O Lapex integrou-se a outros laboratórios da UFRJ, formando o Laboratório LER (http://www.ler.letras.ufrj.br/). Professores e alunos desse laboratório desenvolveram um projeto de dois anos em um colégio estadual do Rio de Janeiro, pesquisando e desenvolvendo oficinas com turmas de oitavo e nono anos do Ensino Fundamental, tendo descobertas interessantes sido feitas, permitindo o desenvolvimento de atividades baseadas nas evidências encontradas na leitura de períodos. Entre essas descobertas, identificamos, através da pesquisa com rastreamento ocular, que há leitores mais lineares e outros mais estruturantes, que fazem refixações regressivas a áreas estratégicas dos períodos. O projeto foi concluído em dezembro passado e estamos no momento escrevendo um livro a ser lançado provavelmente no próximo semestre com o título Psicolinguística e Metacognição na Escola. Posso adiantar que avaliamos que o objetivo translacional do projeto parece ter sido alcançado, demonstrando que a capacidade de identificação do ponto de vista do período teria sido impactado significativamente pelas oficinas metacognitivas de rastreamento ocular, desenvolvidas durante dois meses na escola. Estas atividades teriam propulsionado auto-reflexividade, contribuindo para transformar leitores lineares incompletos em leitores estruturantes seletivos, capazes de identificar diferentes perspectivas e pontos de vista.


12. Qual o principal objetivo do rastreamento ocular e que resultados mais “curiosos” ou interessantes o senhor obteve ao longo de suas pesquisas usando esta técnica experimental?


A técnica de rastreamento ocular permite monitorar os processos visuais na leitura e na observação de imagens estáticas ou dinâmicas, sendo, possivelmente, o método psicolinguístico mais direto. Além de vir usando a técnica de rastreamento ocular em estudos em português, desde 2006, quando publiquei em parceria com Miriam Lemle e Aniela França o artigo Efeito Stroop e rastreamento ocular no processamento de palavras (http://www.cienciasecognicao.org/revista/index.php/cec/article/view/639), temos utilizado a técnica também no estudo de línguas indígenas, investigando construções recursivas e coordenadas em Karajá (http://www.gragoata.uff.br/index.php/gragoata/article/view/686 ). Também orientamos a tese de doutorado de Marcia Nascimento, falante nativa de Kaingang, que estudou evidenciais em sua língua, usando, entre outras, a técnica de rastreamento de frases e imagens, em tarefa de “Sentence/Picture matching” (http://poslinguistica.letras.ufrj.br/images/Linguistica/3-Doutorado/teses/2017/Tese-NascimentoM.compressed.pdf ).

No que se refere à pesquisa sobre a compreensão de frases da língua portuguesa, usei a técnica também na leitura de períodos com orações relativas e de períodos com Sintagmas Preposicionais em situação de ambiguidade temporária. Outro estudo interessante, diz respeito à questão da penalidade do nome repetido, em parceria com Marcio Leitão e Antonio Ribeiro (http://www.letras.ufrj.br/poslinguistica/revistalinguistica/wp-content/uploads/2012/12/revista-linguistica-v8-n2-penalidade-do-nome-repetido1.pdf )

Como já disse acima, temos também, desde 2014, usado a técnica explorando a leitura, na interface educacional.

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Agradecemos ao professor Dr. Marcus Maia pela disponibilidade em responder nossas perguntas.

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