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A LINGUÍSTICA É UMA CIÊNCIA DE OUTRO MUNDO!

 

Vitor Hochsprung (UFSC/FAPESC)

DESAFIO ACEITO?

 

 

Uma das primeiras coisas que eu reparei quando cheguei no Brasil foi que as crianças e os adultos falam coisas muito diferentes. Tem coisas que as crianças falam que os adultos jamais falariam. Sei que, em processo de aquisição de linguagem, as crianças produzem mesmo construções curiosas (no meu planeta, isso também acontece). Porém, quero tentar entender um pouco mais do PB através dos dados que anotei:

  1. Quer água.

  2. Desfecha a porta.

  3. Eu fazi um desenho.

  4. Eu sabo essa música.

  5. Quelo comida.

  6. Eu sou gande.

  7. O au-au tá comendo.

Entendo que cada dado pode ser explicado de uma forma e com hipóteses diferentes. Não é só uma hipótese que dá conta de todos os dados apresentados. Você poderia me ajudar pensando sobre os dados que você sabe? Não esqueça de numerar! Outra coisa: você tem alguma criança próxima adquirindo língua? Tem alguns dados que possam me ajudar a construir um Corpus? Me mande uma mensagem depois!

O IDEAL AGORA É QUE VOCÊ DÊ UM TEMPO NA LEITURA E PENSE NOS DADOS. DEPOIS, VENHA AQUI CONFERIR O QUE ALGUMAS PESSOAS JÁ ME DISSERAM!

PRIMEIRAS CONCLUSÕES

 

Pessoal, quem quiser ver a colaboração e a discussão que os terráqueos trouxeram pra mim, podem ver aqui na foto compartilhada no instagram do meu amigo Vitor. A discussão foi bastante pertinente e, em resumo, eu cheguei as seguintes respostas:

Sobre o dado em (1), falaram que tem a ver com a ordem do português brasileiro. Gente, as crianças terráqueas são muito espertas: se elas estão adquirindo o português brasileiro, elas já sabem que essa língua vai ordenar primeiro o verbo e depois o argumento interno. Ela já sabe que não soaria legal dizer “água quer”. Isso ocorre de acordo com a língua que a criança está adquirindo. Como disse meu amigo Etshiro, que estuda o Japonês, uma criança adquirindo japonês, por exemplo, produziria coisas diferentes, pois o verbo vem no final. A criança só não faz ainda a concordância de primeira pessoa, Eu quero, que aparecerá, segundo os terráqueos, em um momento posterior na aquisição do português brasileiro.

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Em (2), eu vejo uma questão de morfologia, mais especificamente de formação de palavras. A criança percebe o poder que o prefixo des- pode ter sobre os verbos, formando quase suas versões opostas. Uma comparação possível que o Vitor me contou é: se desarrumar é o contrário de arrumar, desfechar pode ser o contrário de fechar (para as crianças). Porém, a criança não faz isso de maneira consciente e é isso que mais chama a atenção.

 

Em (3) e (4), acontece fenômenos parecidos, segundo meus amigos terráqueos. ‘Fazer’ e ‘saber’ são verbos da segunda conjugação, isto é, terminam em –er. Para esses verbos, normalmente a regra, para a primeira pessoa do singular (eu), é: no passado, trocar –er por –i (correr – corri, comer – comi) e, no presente, trocar o –er por –o (correr – corro, comer – como). Assim, a criança faz o uso dessa regra mais comum, porque não conhece, ainda, a dimensão dos verbos irregulares na gramática do português brasileiro. ‘Fiz’ virou ‘fazi’ em (3) e ‘sei’ virou ‘sabo’ em (4). É muito interessante perceber que as crianças sabem muito mais do que pensamos sobre língua, sabem usar uma regra que ninguém ensinou pra ela, só ouvindo o que falam e usando a capacidade linguística que já têm.

 

 

 

Em (5) e (6), o que está em questão é a dificuldade que muitas crianças podem apresentar ao produzir o som do /r/. Segredo: o Vitor disse que ele tinha isso! Quando o /r/ está iniciando a sílaba, pode ser substituído por /l/, devido ao fato de os dois sons serem produzidos no mesmo lugar (reparem que a língua vai até o comecinho do céu da boca). É o que acontece em (5). E quando ele aparece em um encontro consonantal, pode sumir, porque, inicialmente, é mais fácil crianças produzirem uma sílaba com consoante + vogal do que consoante + consoante. É o que acontecem em (6). Eu confesso que tinha essa dificuldade quando comecei a aprender o português brasileiro no meu treinamento antes de vir para a Terra.

        

 

Já em (7), eu chuto alguma influência dos pais, que podem se referir ao animal cachorro como “au-au”, fazendo com que a criança entenda que é assim que vocês chamam o animal em PB. Se os pais chamarem sempre de “cachorro”, não acho que a criança venha a chamar de “au-au”, por não associar. É como no meu planeta, quando as crianças chamam de zum zum um bichinho super comum que parece a abelha aqui da Terra e que lá se chama Froshva.

 

 

 

Pessoal, estou adorando estudar e aprender mais o Português Brasileiro com a ajuda de vocês, então se tiverem alguma sugestão ou reflexão a fazer, entre em contato comigo!

    (1) Quer água

    (2) Desfecha a porta

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 (3) Eu fazi um desenho

 (4) Eu sabo essa música

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(05) Quelo comida

(06) Eu sou gande

(07) O au-au tá comendo

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