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Entrevista: Professora Dra. Aniela França (UFRJ)

Entrevista realizada por: Ana Clara de Araújo Marques, Ana Magally Pereira de Freitas, Layne Maria dos Santos Batista Lira (UFPB)


1) Como surgiu o seu interesse pela área da neurociência da linguagem e como foi sua trajetória acadêmica até decidir e começar a atuar nessa área?


Aos 16 anos fui com meus pais para Nova York e me apaixonei pela cidade. A partir dali resolvi aprender inglês como quem quer aprender um segredo do mundo. Nesse caminho, estudando inglês em turma intensiva no Brasas, fiquei amiga da professora e de outros americanos que moravam no Rio. Ganhei de um deles o livro Psicolinguística de John Deese. A minha vida acadêmica se encaminhava para a medicina, e naquele ponto já estava tentando uma bolsa por um programa da ONU para estudar nos Estados Unidos. Ganhei a bolsa e fui na viagem de avião já lendo o livro que falava de linguagem no cérebro. Fiquei irremediavelmente fascinada. Talvez na década errada porque realmente não tinha quase ninguém estudando “language in the brain” na década de 80, principalmente no nível da graduação! Voltei de lá com um problema de equivalência porque os cursos não se encaixavam aqui. Tentei revalidar pela medicina daqui, indo procurar um antigo professor na Biofísica da UFRJ, Prof. Ricardo Gatáss, que era um nome reconhecido na percepção visual em macacos, mas percebi que por ali não ia conseguir chegar na linguagem. Na neurocência daqui só se concebia pensar em afasia e eu já sabia que queria estudar processamento saudavel de linguagem. Acabei indo procurar a Prof. Miriam Lemle da Linguística, que por sinal tinha sido a tradutora daquele livro do John Deese que tinha me motivado tanto. Miriam aceitou o projeto e logo me botou para procurar um programa informal de sanduíche nos Estados Unidos (esse sanduiche como conhecemos agora não existia nos final dos anos 90) onde eu pudesse me preparar melhor para a tese que eu queria desenvolver.


2) A partir de suas experiências e pesquisas, o que você pode nos contar a respeito do início dos estudos da neurociência da linguagem?


No final dos anos 90 existia uma coisa já bem testada em neurociência da linguagem: uma onda com amplitude exacerbada que aparecia 400ms depois de o participante ouvir uma sentença com uma incongruência semântica local, tipicamente entre verbo e complemento, por exemplo como em João comeu sandália. Essa onda era o N400, hoje já replicada em mais de 200 línguas. O meu início no doutorado não foi nada fácil, porque eu queria ir além desse teste e não tinha nem EEG. Pensei em outros tipo de merge não locais mas apresentados de tal forma que eu podia testar o merge local do verbo com o complemento nas 6 condições, mas aquele merge se relacionaria com outras coisas no âmbito da sentença, como movimento de constituintes, retomada pronominal, implicatura escalar e teoria da mente. Será que a neurofisiologia desses merges também produziriam o mesmo N400? Essa era a pergunta (Cf. http://www.ppglinguistica.letras.ufrj.br/images/Linguistica/3-Doutorado/teses/2002/Franca_Aniela%20Improta%20_%20tese%20doutorado%202002.pdf)

Contei com o apoio completo da minha orientadora, Profa Miriam Lemle, e carta branca para me virar. Fiz muitos cursos para poder me preparar para a minha pesquisa. Estagiei no setor de eletroencefalografia do Instituto de Neurologia da UFRJ e fiz um sanduíche em Maryland com o David Poeppel, que é da segunda geração de neurocientistas da linguagem. Com o David acertei meu projeto e entendi quais as parcerias que teria que fazer aqui para conseguir rodar o experimento principal da tese. A Miriam me ajudou a estabelecer parceria com a Engenharia Biomédica da COPPE. Fomos falar com o grande e saudoso Professor Infantosi que colocou restrições ao projeto mas acabou aceitando nos ajudar. Na verdade o Prof. Infantosi trabalhava com percepção de dor, que é alguma coisa percebida em uma janela temporal diminuta. Para ele as latências linguísticas por volta dos 400 milissegundos eram demasiadamente tardias para serem estudadas. Conseguimos através do CNPq trazer o David Poeppel para um evento aqui. Ele conversou muito com a equipe do Prof Infantosi e então conseguimos montar uma rotina para os testes. Um aluno de IC do Professor, Pedro Constant, me ajudou na rotina de computação para a presentação dos estímulos e um outro aluno de doutorado do Prof. Infantosi, Eduardo Zayen, nos cedeu um EEG velho de guerra e que continuava na ativa em um consultório particular. Então podíamos usá-lo nas horas vagas. Foi devagar, mas aconteceu. Achamos diferentes morfologias para as ondas relativas às diferentes cognições linguística que testamos. A tese foi bem recebida e foi desmembrada em dois artigos internacionais, um deles na Jounal of Neurolinguistics, que tinha alto impacto naquela ocasião (França et al 2004).


3) Qual a função das medidas neurofisiológicas, eletromagnéticas e eletrodinâmicas no âmbito da ciência da linguagem? Você poderia nos explicar, um pouco, sobre o funcionamento de cada uma?


As medidas neurofisiológicas podem ser ligadas à eletricidade e ao magnetismo ou ligadas à hemodinâmica. Para se conseguir estudar as medidas elétricas temos que usar uma técnica chamada extração de potencial relacionado a evento (ERP) executada por um aparelho de EEG que capta as ondas cerebrais que chegam até o escalpo. As ondas cruas são tratadas pela técnica do ERP que faz aflorar potenciais relacionados à apresentação de diferentes partes da sentença com resolução de milissegundos. É um teste que oferece realmente grande acurácia temporal embora não tenha acurácia espacial. Então, para se saber a sequência da cognições envolvidas em um processamento bem enfocado pelos estímulos, por exemplo, uma retomada pronominal, esse é o teste para se usar. Pode-se captar efeitos de retomada, como garden path, e também pode-se comparar complexidade da cognição linguística porque fica visível a quantidade de energia dispensada e a latência (tempo até o início da atividade) em uma ou outra computação. Os ERPs são bastante usados em projetos em que se comparam sentenças congruentes e incongruentes e também gramaticais e agramaticais. O contraste favorece o entendimento acerca das cognições que se quer estudar (cf. http://www.letras.ufrj.br/poslinguistica/revistalinguistica/wp-content/uploads/2012/12/revista-linguistica-v8-n2-modulando-o-n4003.pdf)

Porém não se pode ter certeza onde no cérebro essas computações se originaram. Para saber onde as cogições se originam e também as áreas que confluem no processamento de uma dada cognição, os testes de fMRI (ressonância magnética funcional) são os mais indicados . Esses testes tem uma excelente resolução espacial, no nível de milímetros mas não tem boa resolução temporal. Além disso, o fMRI são instrumentos que necessitam um investimento altíssimo e por isso são bem pouco acessíveis para a pesquisa básica.

4) Como são feitas as pesquisas em pacientes para identificar as áreas afetadas no cérebro?


Já respondi um pouco na pergunta anterior, mas completando, usa-se normalmente um protocolo chamado BOLD (Blood Oxygen Level-Dependent imaging). A imagem dependente do nível de oxigênio no sangue, ou imagem de contraste BOLD, é um método usado na ressonância magnética funcional para observar que áreas do cérebro estiveram ativas para resolver um problema como o processamento de uma sentença. O cérebro é incapaz de armazenar glicose, embora esse seja o único alimento que ele consome. Quanto maior é o fluxo sanguíneo, maior é disponibilidade de glicose e oxigênio, na forma de hemoglobina oxigenada, naquela região. A máquina consegue detectar o fluxo sanguíneo e assim pode-se ver as áreas que estiveram ligadas à resolução de um problema cognitivo como processamento de algum aspecto linguístico. A resolução emporal é ruim porque o proocolo só vê as áreas depois que elas estiveram, envolvidas. Primeiro elas se envolvem na resolução e porque estiveram envolvidas precisam ser nutridas e então o fluxo sanguíneo é direcionado para elas. É esse fluxo de alimentação que a máquina mostra, através daquelas imagens cerebrais fascinantes.


5) Como se dá o processamento da linguagem em um paciente diagnosticado com afasia? Como acontece o tratamento? Existe uma cura?


Essa pergunta é bem dificil de responder. O acidente cerebral (AVC) ou a injúria ao tecido cerebral que provocaram a afasia podem ser muitos diferentes. Há AVCs hemorrágicos e secos, amplos ou pequenos. Assim revertê-los depende cruciamente da rapidez do socorro, da terapia adotada e de quão extenso e de que lugar no cérebro ele atingiu.


6) Você já desenvolveu pesquisas sobre os desvios da linguagem? Se sim, houve algum momento em que você sentiu um nível maior de dificuldade por estar estudando indivíduos não típicos?


Não tenho o mesmo interesse por desvios da linguagem do que tenho por neurofisiologia de linguagem saudável e por aquisição.

Não propriamente uma pesquisa, mas quando estava no doutorado fiz um ano de estágio no Abulatório de AVC do Hospital Antonio Pedro em Niteroi sob a supervisão do Dr. Osvaldo Nascimento. Via afásicos duas vezes por semana no ambulatório e tentava aplicar os testes do Prof . Yosef Grodzinsky, testes esses conhecidos como Mama Bear, Papa Bear. Estava me preparando para estar com o próprio Grodzinsky que viria ao Brazil no início de 2001. Para melhor explicar o que fazia acho que é bom explicar a hipótese do Prof. Grodzinsky.

Grodzinsky (1990) postulou a Hipótese do Apagamento dos Traços na Afasia (TDH – Trace Deletion Hypothesis). Essa Hipótese defendia que a deficiência dos afásicos era de natureza sintática e restritiva, isto é, o déficit afetava apenas certos aspectos sintáticos e preserva outros processos. Grodzinsky supôs que a sintaxe nos afásicos perdesse os vestígios dos DPs. Assim operações como a voz passiva se tornavam impossíveis para eles. Falando em sintaxês um verbo apassivizado perde a capacidade de atribuir caso ao seu objeto e, como consequência, o enunciado viola a restrição conhecida como Case Filter, resultando em uma sentença mal formada como em (1). O DP que ocupa a posição do objeto precisa se deslocar para a ganhar caso dos traços fi em T e chegar em (2). Ao se deslocar mantém contato através do vestígio com a posição inicial, onde ganhou papel temático.


(1). * [e] foi abraçada [MamaBear]

(2) [MamaBear]i foi abraçada ti


Grodzinsky mostrava duas figuras como essas abaixo, e falava a sentença “Mama Bear foi abraçada”. Depois de falar, ele pedia para o afásico apontar qual das duas figuras seria a certa para ilustrar o que ele havia escutado.


De acordo com os achados de Grodzinsky, os afásicos escolhiam a segunda figura. Isso indica eles não conseguem entender a manobra da passiva que troca os argumentos de ordem. Mama Bear foi abraçada para eles corresponderia à ordem SVO do português Mama Bear abraçou, e portanto os afásicos achavam que a frase dita para eles era Mama Bear abraçou Papa Bear. Além disso na segunda figura Mama Bear aparece primeiro da esquerda para direita e isso reforça a ordem SVO. Então eles escolhiam a segunda figura por pura heurística. Na verdade por duas razões heurísticas: (i) heurística da ordem ativa do portugues SVO e (ii) heuristica visual, primeiro vem a figura do personagem falado primeiro (Mama Bear) e por último o segundo pesonagem falado (Papa Bear).

Eu fiz testes informalmente com os afásicos do ambulatório, mas o meu problema é que nunca tive certeza para onde os afásicos apontavam. Pelo menos na minha experiência, circunscrita àquele ambulatório, outras questões como falta de equilíbrio, estado geral debilitado e etc faziam com o que os pacientes não se engajassem no teste a ponto de transparecer a verdadeira cognição de linguagem. Essa experiência para mim foi decisiva para eu não querer trabalhar mais com afasia.


7) Durante as suas pesquisas qual foi a sua experiência mais marcante? Você poderia dividir conosco um relato dessa experiência?


Houve muitas. Acredito que uma pesquisa com morfologia de palavras longas tenha sido a mais marcante. Ganhou um prêmio no Congresso da Psychophysiology Society (França et al 2009). E aqui saiu online na Revista Veredas <http://ojs2.ufjf.emnuvens.com.br/veredas/article/view/25172/14203>

Fico encantada de o teste com EEG ser sensível a partes da palavra. Esse teste vale a pena ler é realmente muito interessante.


8) Qual interferência que a dislexia causa no processo de aprendizagem? Quais são as metodologias utilizadas para investigar os processos cognitivos nos disléxicos?


A dislexia dificulta que os sinais visuais dos grafemas sejam reconhecidos simbolicamente como especiais e ligados à língua. É como se o portador de dislexia fosse cego especificamente para palavras. Hoje em dia os testes ERP-EEG são muito usados porque descobriu-se que uma onda, o N170, aparece espontaneamente em leitores como marca do esforço de entender os traços visuais dos grafemas como tal e não com traços e angulos de outras coisas que vemos o dia todo nas que não linguagem. Os dislexicos não produzem essa onda ou produzem um N170 muito tímido.


9) Como a neurociência da linguagem pode contribuir no processo de aprendizagem?


Em primeríssimo lugar, ela pode contribuir para que se instaure a metacognição de linguagem, ou seja contribuindo para que o aluno e o professor vejam a neurofisiologia da sua cognição de linguagem através das ondas elétricas e então possam se conscientizar das computações linguísticas ( cf. França et al, 2018).


10) Sua tese de doutorado foi pioneira, no Brasil, nos estudos da área de Neurociência da Linguagem que utilizam a técnica experimental EEG, como você vê o desenvolvimento dos estudos com essa técnica de lá pra cá e o que eles têm trazido de mais interessante no âmbito dos estudos da linguagem no Brasil?


Pensei que fosse se expandir mais do que se expandiu nesses 14 anos. Fora do Brasil é ua área incrivelmente e ebulição. Mas apesar de todas as dificuldades que temos há grupos começando e gostando como em Santa Catarina, o Laboratório da Profa. Mailce na UFSC, tem gente no nordeste, no Rio Grande do Norte, Sergipe e Bahia e também em Minas. Espero que vocês aí na Paraiba se habilitem logo a usar a máquina que vocês adquiriram! Vocês tem um bom grupo aí que pode contibuir muito para consolidadr essa área no Brasil. Fora isso formei 9 doutores nesses anos. Eles estão se espalhando por aí e vão movimentar a área, tenho certeza.


11) O que você diria para alunos e iniciantes interessados na área de Neurociência da Linguagem?


Diria que vale a pena entrar nessa área. Dá bastante trabalho, mas a interdisciplinaridade é instigante. Aconselho fortemente que vocês façam cursos e procurem viver um pouco os problemas de um laboratório de neurofisiologia. É uma sensação única poder olhar o cérebro mais de perto saber um pouquinho mais sobre ele e é maravilhoso pasmar com sua complexidade.

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Agradecemos à professora Drª. Aniela França pela disponibilidade em responder nossas perguntas.

Referências

Franca, A.I Lemle, M; Gesualdi-Manhães, A, Cagy, M; Infantosi AFC The N400 as a specific index of the saussurean arbitrariness point in word recognition. Psychophysiology Meeting Precis WILEY-BLACKWELL PUBLISHING, INC p S100-S111 2009

França, A; Lage A, Gomes, J. Soto, M. Gesualdi-Manhães A. Cérebro e leitura: Educação, Neurociência e o novo aluno na era do conhecimento. In Psicolinguística e Educação Marcus Maia Edito p 221- 244 2018.

Franca, A.I Lemle, M; Cagy, P Constant, M; Infantosi AFC Discriminating among different types of verb-complement merge in Brazilian Portuguese: an ERP study of morpho-syntactic sub-processes. Journal of Neurolinguistics 17 (6), 425-437 2004

Grodzinsky, Y. Theoretical perspectives on language deficits. Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, A Bradford Book, 1990. 192 p.

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