top of page
  • stelladelacerda

Entrevista: Prof. Dra. Antónia Coutinho (Universidade Nova de Lisboa)


Entrevista publicada no Volume 9 nº 1 (2020) da Revista Eletrónica de Linguística dos Estudantes da Universidade do Porto – Revista elingUP (<https://ojs.letras.up.pt/index.php/elingUP/article/view/7911/7242>).


A Professora Doutora Antónia Coutinho é Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas e Doutora em Linguística – Teoria do Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É também investigadora do grupo Gramática & Texto do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, tendo jáinúmeras publicações relevantes no conhecimento e análise de diferentes produtos textuais. O seu trabalho desenvolve-se, portanto, nas áreas da Teoria do Texto, da Didática da Língua (L1) e da Análise do Discurso, privilegiando sempre uma visão enquadrada pelo Interacionismo Sociodiscursivo. Entre vários temas de investigação já tratados, o seu trabalho constitui um enorme contributo para a problematização dos géneros de texto, de questões de organização textual e de relações que se possam estabelecer entre textos e discursos.

A presente entrevista foi elaborada pelas estudantes Beatriz Martins, Mariana Silva, Rita Cunha e Violeta Magalhães e, posteriormente, conduzida presencialmente pelas estudantes Mariana Ribeiro, Rute Rebouças e Violeta Magalhães no dia 21 de fevereiro de 2020 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Queremos agradecer à Professora Doutora Antónia Coutinho pela gentil receção que nos proporcionou e pela disponibilidade demonstrada ao longo de toda a entrevista através das relevantes respostas concedidas.


Muito bom dia, Senhora Professora Doutora Antónia Coutinho. Antes de mais, agradecemos imensamente ter aceitado o nosso convite para esta entrevista. A primeira pergunta que gostaríamos de colocar é a seguinte. A Senhora Professora tem inúmeros textos publicados nos quais aborda a noção de Linguística de Texto, problematizando vários conceitos e abordagens diferentes para a própria disciplina. Gostaríamos por isso de perguntar qual o posicionamento da Senhora Professora perante a Linguística de Texto. Isto é, que perspetivas adota e quais as que rejeita?

Talvez começasse por dizer que não fico muito confortável por pensar que rejeito uma perspetiva. Acho importante pensar que há várias perspetivas legítimas e não me reconheço o direito de rejeitar nenhuma. Isto dito, parece-me que há, naturalmente, conceitos e abordagens diferentes. Talvez distinguisse duas grandes tendências: uma, que, no fundo, toma o texto como um prolongamento da frase, no sentido em que os textos são feitos de frases, organizadas segundo determinados princípios e, portanto, há um desenvolvimento que privilegia o tipo de relações interfrásicas, partindo da hipótese de que esse tipo de mecanismo pode dar conta dos princípios organizativos ou da boa formação dos textos. Esta é uma hipótese que tem tradição nas chamadas Gramáticas Textuais e funciona sobretudo numa lógica de ligações e interligações entre frases ou entre grupos de frases.

A outra tendência parte de um ponto de vista contrário, defendendo que os textos são objetos comunicativos em sentido amplo e acontecimentos sociais feitos de língua e, portanto, o que vem primeiro em termos de análise é essa dimensão social e comunicacional, que, para se realizar, precisa de recursos linguísticos. O movimento pode então ser da frase ao texto ou do social e comunicacional até ao linguístico ou microlinguístico. Estas são duas tendências que podem parecer opostas, mas que, em última análise, talvez sejam mais complementares.

O lado comunicacional, por exemplo, não pode dispensar a análise e a manipulação dos recursos linguísticos. Talvez possa referir ainda uma outra tendência, que tem a ver com tipos de abordagens informáticas na área da Linguística de corpus, em que os textos são encarados como bases de dados, isto é, como o terreno onde se pode localizar determinado fenómeno. Apontei três perspetivas. Aquela em que eu trabalho é claramente aquela que parte da perspetiva social, mas, na verdade, esta perspetiva não pode dispensar a outra, tem de incluí-la como um recurso, como um instrumento, como uma condição de trabalho.


Quais as dificuldades e/ou limitações que um linguista de Texto pode sentir no desenvolvimento do seu trabalho? E quais as perguntas de investigação para as quais procura resposta?

Penso que esta é uma excelente questão porque me leva a afirmar que trabalhar em Linguística de Texto é, de certa forma, muito ambicioso e um bocadinho arriscado. Trabalhar segundo uma perspetiva social e comunicacional ampla obriga a uma visão integrada e a um esforço para pensar: se um texto é um objeto social, que implicações é que isso tem no meu trabalho? Penso que essa é uma das questões para as quais procuro resposta. A Linguística de Texto, nesta perspetiva social, obriga também a pensar que, para dar conta de um objeto complexo como o texto, são precisos outros apoios, outros instrumentos, outra formação científica. E isso leva necessariamente ao estabelecimento de pontes com outras áreas científicas. No início da Linguística moderna, o grande objetivo foi identificar a Linguística como disciplina própria.

A Linguística do Texto tenta fazer o movimento contrário, perguntando: em que é que a Linguística do Texto precisa de outras áreas?; como é que ela pode contribuir para outras áreas e para a própria Linguística?. Trata-se, no fundo, de trabalhar com um objeto complexo assumindo a sua complexidade. É claro que teremos sempre de fazer reduções metodológicas. Contudo, o texto obriga a que o tipo de reduções tenha em conta algum grau de complexidade, sob pena de perdermos o objeto de estudo. Compreender de que forma um texto/classe de textos funciona num determinado contexto social, qual a sua finalidade, de que forma é que um tipo de ligações entre frases contribui para um determinado objetivo são, no fundo, aquelas que continuam a constituir um desafio para a Linguística de Texto.


Num texto de 2017, “Da natureza heurística da teoria do texto”, a Senhora Professora fala de coesão textual, mas também das vantagens de a violar. Poderia dar-nos exemplos de casos paradigmáticos deste fenómeno?

Em geral, a descrição da coesão textual assenta sobre determinadas classes de textos: textos contínuos com uma determinada dimensão que obrigam a retomas anafóricas, cadeias anafóricas, etc. Mas, quando começamos a olhar à volta, começam a aparecer muitos casos que escapam à convencionalidade de algumas descrições. São textos da área da literatura, textos de publicidade e muitas vezes também textos do quotidiano. Parece-me que, tal como a coesão foi descrita, o tipo de descrições assenta em textos com determinadas características: textos literários canónicos ou textos de caráter académico. No entanto, creio também que quem trabalha em Linguística de Texto deve poder ter coisas a dizer sobre qualquer texto, isto é, sobre qualquer produção em língua natural. Recordo-me de uma colega que há algum tempo apresentou num colóquio uma análise de um poema com uma única palavra. É evidente que este tipo de objeto levanta problemas à análise e mostra também que a diversidade de textos coloca problemas que não são tradicionalmente colocados pela coesão.

Por outro lado, pode haver outras formas de coesão. Eu analisei alguns jingles da TSF criados a partir de sessões da Assembleia da República que eram compostos por partes selecionadas, cortadas e posteriormente montadas com uma finalidade humorística. Através da análise percebeu-se que muitas vezes a coesão resulta da alternância de vozes, de deixas que são ligadas, isto é, o texto parece que é incoerente porque mistura coisas, mas tem um princípio organizativo que muitas vezes funciona por absurdo e com outros mecanismos que não têm a ver com retomas ou com tipos típicos de coesão. O que eu quero dizer é que existem sempre recursos multimodais, pois todos os textos são multimodais em graus diferentes. Como a língua é usada para atingir determinadas finalidades numa situação concreta, acaba por ser uma questão verdadeiramente interessante para quem trabalha em Linguística. Isto dito, estou cada vez mais interessada na procura dos mecanismos linguísticos que fazem as especificidades dos textos enquanto objetos sociais e comunicativos.


Uma vez que os géneros textuais podem ser descritos através de sequências prototípicas, continuará a ser produtiva a noção de tipo de texto? Em que medida os três conceitos (género textual, tipo de texto e sequências prototípicas) continuam a ser relevantes e operativos na Linguística de Texto?

Eu talvez dissesse que a distinção entre tipo de texto e sequência prototípica já é um bocadinho coincidente. Pensando no trabalho de um dos autores que mais contribuiu para a divulgação destas noções nos últimos anos na Linguística de Texto francófona, que é Jean-Michel Adam, os textos organizam-se segundo vários critérios (ou módulos) e um deles é o da sequencialidade. A sequencialidade funciona partindo do princípio de que há sequências prototípicas, o que vem na mesma linha de trabalhos sobre prototipicidade linguística, semântica prototípica e estruturas estabilizadas. Já a ideia de tipo de texto corresponde a uma espécie de extensão da noção de sequência prototípica. Por exemplo, um texto que é feito só de sequências narrativas, em que as sequências que abrem e fecham são sequências narrativas, ou que se possa resumir através de uma sequência narrativa é um texto de tipo narrativo. Portanto, a ideia de tipo de texto acaba por tender a ser usada de duas formas diferentes: como sinónimo de sequência prototípica e como extensão da noção de sequência prototípica, correspondendo a um texto com várias sequências de um determinado tipo ou em que a sequência que abre e fecha é do mesmo tipo.

Depois, o próprio Jean-Michel Adam afirma que não considera as sequências as peças centrais da descrição de textos. Isto não significa invalidar a utilidade da descrição através de sequências prototípicas, mas esclarecer que esse será (apenas) um aspeto entre outros. Daí que me pareça um bocadinho “abusivo” trabalhar com os textos usando só esse critério sequencial e tornando-o o aspeto absolutamente dominante. A questão dos géneros e dos tipos (ou sequências prototípicas) não implica que eles sejam propriamente incompatíveis. Determinados géneros de texto antecipam como altamente previsíveis determinadas organizações sequenciais, embora não necessariamente obrigatórias, porque nos textos não há propriamente obrigatoriedades absolutamente rígidas. Um exemplo fácil será pensarmos num conto, que previsivelmente obedecerá a uma estruturação sequencial de tipo narrativo. Eu evito dizer que se trata de um texto de tipo narrativo porque pode haver contos que tenham uma estrutura de outro tipo, mas, basicamente, quando estamos perante um conto ou um editorial, estamos a falar de géneros e podemos dizer que num caso e no outro previsivelmente haverá uma organização sequencial de um determinado tipo. Um conto será previsivelmente narrativo, um editorial será previsivelmente argumentativo.

Depois, ainda há uma outra questão: se nós pensarmos em sequências prototípicas, o que é que estamos a dizer? Se pensarmos numa organização sequencial narrativa, dizemos: há uma situação inicial, uma complicação, uma resolução e eventualmente uma moral. Mas pode acontecer que alguém produza um texto com caraterísticas da ordem do narrar sem construir uma sequência. Se pensarmos no modo que as crianças têm de narrar (“fiz isto, e depois fiz aquilo, e depois fui não sei para onde, e a seguir fiz não sei o quê”, etc.), há uma narração com determinadas caraterísticas de organização temporal marcada por formas linguísticas, por tempos gramaticais, por organizadores temporais ou localizadores temporais, mas não há uma sequência narrativa porque não há complicação, nem resolução, etc. Trata-se apenas de uma linearização de acontecimentos. E isto introduz a seguinte questão: a sequencialidade é uma forma de organização, mas não exclui outras possibilidades de uso da língua. É possível narrar e organizar esse narrar de uma forma prototípica ou não.

Alguns géneros, como os livros de linhagem (um género caído em desuso hoje em dia), que são tipicamente da ordem do narrar, serviam essencialmente para registar matrimónios e nascimentos, mas, por exemplo, no livro de linhagens de D. Pedro, há o célebre episódio da Batalha do Salado, que tem todas as caraterísticas da sequência prototípica narrativa (situação inicial, complicação, resolução). Isso mostra que os textos podem incluir organizações sequenciais diversas e que podem não coincidir necessariamente com uma sequência prototípica. Isto significa que sim, esses conceitos continuam a ser relevantes e operativos.

Talvez os conceitos de género e tipo possam eventualmente colidir ou levantar alguns problemas, mas apenas quando são utilizados de uma forma não crítica, como se fossem sinónimos. Na verdade, ambas as opções, por um ou outro motivo, são válidas e só se tornam problemáticas quando se misturam orientações diferentes que tendem a colidir. Em geral, a noção de género é mais abrangente, implicando várias questões comunicacionais. O tipo de texto está normalmente apenas relacionado com o ângulo da sequencialidade. Se isso for suficientemente claro, não surgirão problemas. Depende também da forma como o trabalho e a descrição são conduzidos e explicitados e de como são metodologicamente orientados.


Os géneros textuais, associados a contextos sociais e dependentes de atividades profissionais, são tidos como dinâmicos, flexíveis e alteráveis ao longo do tempo. Os tipos de texto (ou sequências prototípicas) são tipicamente teóricos, estáveis e fixos. Contudo, até que ponto é que poderemos considerar uniforme determinada sequência (descritiva, por exemplo)? Poderemos também problematizar a rigidez dos tipos de texto ou sequências prototípicas?

Em relação às sequências, há uma primeira questão que poderá passar pelo facto de elas tendencialmente serem fixas, mas, na verdade, não acontecerem sempre da mesma forma. Portanto, a rigidez nunca é absoluta. A bibliografia diz isso mesmo: numa sequência de um determinado tipo podem ocorrer todas as fases ou podem algumas estar omissas, sendo muito frequente a sua omissão. Logo, a rigidez das sequências prototípicas parece ser uma rigidez relativa.

A outra questão que está aqui a ser colocada tem a ver com a própria ideia de sequência prototípica e implica um ponto de vista epistemológico, no sentido em que a própria noção aponta para uma representação mental de prototipicidade. Portanto, o que acontece com as sequências efetivamente produzidas é que, quando eu ouço ou escrevo ou leio um texto, posso dizer “Aqui está uma sequência!”, ou até “Isto nem parece uma sequência narrativa!” porque reconheço que aquilo é uma sequência prototípica, embora possa estar distante do protótipo que interiorizei. Portanto, a questão da rigidez, do ponto de vista da prototipicidade, está imediatamente colocada. Há uma estrutura e depois há maior ou menor proximidade em relação àquele elemento representado. A questão do dinamismo e da flexibilidade dos géneros põe-se de outra forma porque não parte da relação entre a representação cognitiva, mental, e a sequência textual produzida; ela equaciona as relações entre as atividades sociais e os produtos histórica e socialmente estabilizados, associados a essas atividades.

Um determinado género, o artigo científico, por exemplo, tal como o conhecemos hoje, não é um produto estável no tempo. A atividade científica e a forma como as pessoas comunicavam a ciência há dois séculos tinham caraterísticas muito diferentes - comunicava-se por carta, por exemplo. Os géneros partem de uma lógica do social, as pessoas vivem em sociedade, organizam-se em contextos sociais que têm determinadas finalidades e cada época tem as suas formas textuais de comunicar. Assim, esta flexibilidade não é uma flexibilidade que dependa em primeiro lugar da representação mental, mas antes da forma como os contextos sociais gerem, vão dando forma, pressionando ou sancionando, as formas textuais que reconhecem como válidas. Retomando o exemplo da comunicação de ciência, ela depende daquilo que a comunidade científica, numa determinada época, reconhece e usa como forma de comunicar.

Na verdade, são os contextos sociais que validam ou não validam uma forma textual e que vão impulsionando e gerindo de alguma forma essa flexibilidade, o que significa que os géneros vão mudando e se vão adaptando. Há atividades que exercem uma pressão mais coerciva e outras que são mais permissivas, e aqui o exemplo da atividade literária é interessante. O Classicismo obrigava à reprodução dos géneros, em termos literários, e isso instituiu determinadas práticas. Se hoje, na nossa contemporaneidade, os critérios de valorização do texto literário são outros, isso deve-se ao Romantismo. A não obediência a géneros canónicos ou o emergir de formas não propriamente classificáveis fazem parte da forma como, numa determinada época da nossa contemporaneidade, se lida com o papel destes formatos.

Portanto, a diferença entre estas duas questões, tipos de texto e géneros de texto, tem a ver com o tipo de dimensões que estão a ser equacionadas. A primeira é uma questão de representação mental e da forma como essa representação é percetível nos textos ou nas sequências textuais efetivamente produzidas como mais ou menos prototípicas; a segunda tem a ver com formatos que são mais ou menos estabilizados e que terão de ser, em primeiro lugar, validados, pressionados ou modificados pela própria prática social.


Estivemos até agora a falar do seu muito trabalho de investigação realizado na área da Linguística de Texto. Contudo, a Senhora Professora desenvolve também atividade na área da Didática da Língua, especialmente da Língua Materna. Seria possível falar-nos um pouco daquilo que mais a cativa nestas áreas? E de que forma estas se podem entrecruzar?

Eu sempre me interessei por questões de Didática, pois o meu percurso sempre foi esse. Quando fui estudar, queria ser professora (que é algo que parece agora menos habitual). Portanto, fiz a licenciatura e fui dar aulas. E gostei muito de dar aulas! Dei aulas em todos os ciclos e essa foi uma experiência que me enriqueceu muito. Quando comecei a trabalhar na faculdade, a questão do ensino e da forma de didatizar o conhecimento continuou a interessar-me, quer teoricamente, quer na prática.

Depois, a Didática coloca à Linguística de Texto questões interessantes. Questões como o que possa ser educação literária, a forma de trabalhar com textos em sala de aula nos diferentes ciclos de ensino, o papel de ensinar a ler, a escrever e a falar no sentido de desenvolver as capacidades de oralidade, leitura e de escrita de textos de diferentes géneros como condição para uma cidadania madura, ativa, consciente e crítica. Por um lado, implica tudo isto, mas, ao mesmo tempo, também implica, por todas as razões de que já falamos atrás, todo o trabalho de ensino de língua e de gramática. A Linguística de Texto, sem querer parecer arrogante, de alguma forma está em tudo, pois, na verdade, a Linguística de Texto trabalha com literatura, com texto não literário, com língua e com gramática.

Nesse sentido, penso que é uma obrigação da Linguística de Texto trabalhar na disponibilização de material utilizável, não como receita, mas como apoio e como recurso, pois sabemos que a maior parte das colegas que trabalham no ensino básico e secundário não fazem investigação. É claro que se espera de toda a gente em geral e da classe docente em particular que se atualizem em termos científicos. Mas, por vezes, as pessoas têm as suas tarefas, o tempo preenchido e, não estando a fazer investigação, não podem fazer o trabalho todo desde o início. Há, então, uma parte de responsabilidade das instituições de ensino superior, das faculdades, dos centros de investigação, para operacionalizar esse conhecimento de forma a que ele possa ser útil a quem está a trabalhar noutros contextos.

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto foi sempre uma referência nestas ligações entre a Linguística e a Literatura, com o papel da Professora Fernanda Irene Fonseca e do Professor Joaquim Fonseca e agora com outras pessoas que também dão continuidade, claro. Recentemente, temos novos impulsos, nomeadamente a área de linguagens e textos, que está identificada como uma área importante a trabalhar, o que vem validar o papel dos textos na formação e no espaço de aula de língua materna. Parece-me um bocadinho redundante pensar que seja preciso validar isto, mas, se calhar, nalguns casos seria necessário. A questão que me parece nem sempre tão consensual é a de que, de alguma forma, os programas continuam a dissociar muito o que é o literário e o que é outra coisa e, às vezes, até a dividir apenas entre o que é literário e o que é a gramática. Eu estou convencida de que tem de haver espaço para trabalho sistemático sobre algumas questões. Acho que faz todo o sentido que, de vez em quando, haja boas aulas de gramática, bem estruturadas, conduzidas de uma forma laboratorial, e que haja também aulas centradas especificamente em conteúdos literários.

Mas depois, no meio disto, tem de haver também espaço para que possam ser trabalhadas a produção oral e escrita como condições para que as pessoas, quando terminam os seus percursos escolares, possam exercer o que estiverem a exercer na vida profissional com desenvoltura e com fluência. A escola tem essa função, como tem também a função de formar uma apetência literária, questões de gosto, etc. O que me parece é que a Linguística de Texto tem, com certeza, um contributo a dar neste campo. Às vezes, faz-se o trabalho de análise literária só a nível das ideias, mas os textos literários, como os outros textos todos, são feitos de língua.

Portanto, um dos desafios aqui é perceber como é que se consegue determinada finalidade através da mobilização de determinados recursos linguísticos. Podemos dizer a mesma coisa do literário. Provavelmente, pelo menos em alguns casos, o desenvolvimento do gosto estético e o desenvolvimento da capacidade de reconhecer a qualidade literária de um texto pode passar por reconhecer os recursos linguísticos que lá estão mobilizados, seja de forma mais ou menos canónica. E tudo isto é uma aprendizagem, e tudo isso nunca está completamente feito.

Portanto, na verdade, todo este trabalho passa por alguma coisa, que me parece essencial, que é a relação com o texto, isto é, perceber o que é que lá está e como é que se opera com o que lá está. Por exemplo, em relação aos recursos expressivos, em vez de se tentar acertar num dos nomes que está na lista de recursos expressivos, parece-me mais importante, pelo menos numa lógica de progressão de aprendizagem, fazer o movimento contrário e pensar porque é que tal mecanismo desencadeia um determinado efeito. Depois percebe-se que esse mecanismo tem um nome e pode-se consultá-lo, pois as definições podem ser consultadas. O que não se vai poder consultar em lado nenhum é a capacidade de leitura e de interpretação.

A Linguística de Texto tem de poder trabalhar com textos literários e textos não literários e tem a obrigação de contribuir para operacionalizar formas de trabalho. Quando eu digo operacionalizar, não é ter receitas, não é dizer que há exclusivamente uma forma de proceder, até porque acho que não há formas únicas de ação. Mas a Linguística de Texto, enquanto área de conhecimento em Linguística, tem não só de fazer o seu trabalho, como também um outro de seleção e operacionalização de conteúdos para os exportar para a Didática. Obviamente que, se falamos da complexidade dos textos, em princípio a descrição vai exigir também muitos elementos, portanto eles não se podem exportar todos pensando que, de repente, vai toda a gente ficar a saber tudo.

Trata-se de um trabalho de identificação de aspetos que podem ser úteis para desenvolver a educação literária, a capacidade de leitura e de produção oral e escrita e o conhecimento explícito da língua. Repito que pode haver um trabalho organizado e sistemático sobre gramática, sobre o conhecimento da língua e pode haver momentos em que esse conhecimento seja mobilizado como forma de apoio para a leitura, para a interpretação e para a produção. As duas vias podem ser complementares e não se excluem.


Entre 2012 e 2017, a Senhora Professora coordenou cursos de Mestrado em Ensino com português. Tendo em conta a situação atual da classe profissional dos professores em Portugal, que contribuição espera poder ter dado para a formação de profissionais do ensino?

Eu gostava de poder pensar que dei uma contribuição para a formação, mas aí acho que sou menos ambiciosa. Neste momento, já não estou a coordenar o curso, mas continuo ligada com algumas unidades curriculares como docente e faço parte do grupo de investigação Gramática e Texto do CLUNL, que tem tentado exportar alguns conteúdos para o ensino tentando aproximar-se da abordagem de que falava antes, isto é, fomentar um trabalho articulado, que não esteja demasiado desligado da materialidade da língua nem, pelo contrário, seja estritamente um trabalho de Linguística.

Penso que ainda há muito trabalho a fazer e só com algum tempo é que será possível avaliar as vantagens e as desvantagens de alguns elementos. Eu sei que há experiências, noutros países, em que a introdução dos géneros de texto teve como consequência um trabalho muito desligado de tudo o que é gramática e apenas centrado no aspeto social. Gostaria que as experiências em Portugal pudessem ser integradas e aproveitadas de forma mais complementar.

Com as devidas reservas, acho que alguma parte do trabalho com géneros de texto do grupo de investigação Gramática e Texto está introduzido de uma forma não parcelar, de uma forma que tende a articular as várias dimensões envolvidas e a dar o lugar necessário e adequado ao trabalho com a língua, seja com texto literário, seja com texto não literário. Eu não consigo perceber como é que o trabalho com a língua e com textos não passa, em algum momento, por análise da língua, seja qual for o género de texto. Portanto, a expectativa é a de que esta dialética entre o que podíamos considerar micro (as formas, os tempos gramaticais, etc.) e o macro (o que é o género, qual a estrutura do texto, que finalidades sociais tem, quem é que está a envolver) se possa desenvolver.


A Senhora Professora é Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas. A relação entre Linguística e Literatura de que falava há pouco influenciou-a a enveredar pela Linguística de Texto? E como vê o casamento, muitas vezes assombrado por um divórcio, entre Literatura e Linguística?

Há bocadinho disse que fiz a licenciatura e fui dar aulas durante vários anos. E estava muito contente! Mas um dia acordei a pensar “preciso de estudar”. Então concorri a um mestrado em que não entrei. Na altura fiquei desesperada, achei uma injustiça enorme, mas acabei por concorrer a um segundo mestrado, no qual entrei, que foi o de Literatura e Cultura Portuguesas – Época Contemporânea.

Na verdade, eu estava sobretudo interessada na literatura. Ao contrário de outras minhas colegas, não fiquei fascinada pela Linguística na licenciatura e hoje sei porquê: a Linguística que se fazia na altura era estrita. Mas, quando fui fazer o mestrado, tive um seminário que se chamava Análise Textual, que era conduzido por uma docente de Linguística e aí eu descobri um mundo.

Descobri tudo o que havia para descobrir: as Teorias da Enunciação, a Pragmática, a Análise de Discurso, a Linguística de Texto. A novidade era tanta e tão avassaladora que houve um momento em que pensei que ia desistir, mas a professora desse seminário, que depois me orientou, a Professora Doutora Luísa Soares, convenceu-me a não o fazer. O que aconteceu nesse período foi que descobri uma outra Linguística, que me provocava, que fazia muita ligação com os textos e com a literatura onde eu estava habituada a movimentar-me.

A parte engraçada do processo é que, depois de algumas condicionantes, vim para a faculdade dar aulas e, quando me instalei, regressei à outra Linguística. Por um lado, porque tinha de a ensinar e, por outro lado, porque, quando me instalei na área da Linguística de Texto, precisei de tudo o resto. Portanto, regressei à Sintaxe, à Semântica, à Morfologia com outro olhar. Este é um lado da história. O outro lado é o seguinte: quando alguém trabalha em Linguística de Texto, não deve excluir nada. Já estive em contextos em que as pessoas me disseram que só trabalhavam com texto literário ou que não trabalhavam texto literário. É claro que há fases de trabalho em que nos focamos mais sobre uma ou outra classe de textos, mas acredito que não faz sentido fazer exclusões.

Eu tenho um gosto particular pelo texto literário e estou cada vez mais interessada em desenvolvê-lo, até por causa dessa questão de o “casamento” ser muitas vezes assombrado por um “divórcio”. Há linguistas, de quem já falei há bocado, que mostraram muito bem como esse divórcio não faz sentido. No entanto, é uma questão que fica sempre em aberto, que constitui sempre um desafio. E é também uma questão conjetural porque em diferentes contextos a própria Linguística de Texto evoluiu de forma diferente. Em alguns casos, mais por uma Linguística centrada em textos literários, próxima da Estilística, noutros por uma Linguística centrada em desenvolver questões de produção oral e escrita. Também acho que há um outro lado interessante, que é o facto de quem trabalha nas áreas da Literatura se estar a tornar mais sensível ao contributo que a Linguística pode dar.

Espero não estar a ser injusta com ninguém, mas, às vezes, na área da Literatura também o divórcio estava muito estabelecido. Acreditava-se que a Linguística servia meramente para dizer como é que se escreve bem, o que é ou não correto, olhava-se para os linguistas como uma espécie de dicionários ambulantes e a Literatura não teria nada a ver com isso. Bem, parece-me que essa posição também tende a estar mais ultrapassada e a haver mais interesse de cooperação em ambos os lados. Eu penso que isso abre novas portas e oportunidades a não perder para desenvolver outro tipo de trabalho. O lado perverso disto e de tudo aquilo que tenho vindo a dizer é a dispersão, pois assumir que todos os textos interessam cria inevitavelmente alguma dispersão.


Tendo nascido de uma vontade intelectual e científica e pela necessidade de alargar o campo de análise a uma dimensão maior do que a frase, a Linguística de Texto vê desde há muito tempo a sua importância reconhecida em termos científicos. No entanto, como é que a Senhora Professora justificaria a importância da Linguística de Texto para uma melhor compreensão e interpretação da sociedade em geral?

Eu penso que essa questão se relaciona com o que dizia anteriormente sobre haver uma determinada imagem de quem trabalha em Linguística, que pode já estar ultrapassada, como alguém que serve para dizer o que está correto e o que não está correto. Nós que trabalhamos em Linguística ficamos com os cabelos em pé quando ouvimos isto, mas isso existe, ou existia. Depois, há outra dimensão que se impôs que é a de que quem trabalha em Linguística trabalha em Gramática, o que é verdade, mas constitui apenas uma parte da história. Eu penso que, relativamente à Linguística de Texto, abre-se uma possibilidade de aumento da amplitude da Linguística na sociedade.

A Linguística de Texto pode ser útil para áreas diferentes (para o jornalismo, para a comunicação de ciência, para o ensino, para a didática) e até para perceber determinados tipos de relação social ou a comunicação em determinados contextos. Pode constituir uma mais-valia para diferentes áreas da vida em sociedade. É necessário, contudo, que haja canais que permitam a quem trabalha em Linguística de Texto comunicar com as áreas que possam beneficiar desse trabalho e é importante que socialmente também se reconheça progressivamente a Linguística como uma área de conhecimento que pode contribuir para dar respostas em determinadas áreas, pois um dos problemas é que a figura de linguista inclui ainda algum mistério. Voltando a algo que já disse, os textos estão em toda a parte e nós estamos permanentemente a comunicar oralmente e por escrito. Assim, algum conhecimento explícito não só sobre a língua, mas também sobre os textos pode ser útil em diferentes contextos de atividade de trabalho profissional. Eu creio que é preciso construir visibilidade recíproca e, para isso, quem é linguista precisa de ser capaz de estar “nos sítios certos à hora certa”, com as pessoas certas para que possam acontecer cruzamentos.


Que conselhos daria a um/uma estudante que inicia uma incursão pela Linguística de Texto? O que pode esperar um/uma estudante de Linguística dessa área?

Há um conselho, que não sei se é específico para alguém que inicia uma incursão na Linguística de Texto, mas que, apesar de tudo, gostava de dizer: gostar do que se faz. Eu acho que se trabalha melhor quando se gosta do que se faz. É claro que pessoas como nós, que trabalhamos num percurso académico, têm um privilégio que é, em geral, gostar do que fazem. No entanto, gostava de frisar esse ponto de que é importante entrar por aquilo de que se gosta ou, de uma forma mais ampla, por aquilo que nos provoca, seguindo as nossas próprias intuições.

O outro lado do conselho é que nada se faz sem um trabalho cansativo, que nem sempre corresponde àquele pico alto que é aquilo de que gostamos verdadeiramente de fazer. Depois, estudar e continuar a estudar. E penso que assim terminamos com a questão inicial: trabalhar em Linguística de Texto é um bocadinho ambicioso e, por isso, o melhor conselho é pensar que só se pode trabalhar nesta área com modéstia, sabendo que ninguém sabe tudo e que as outras pessoas que trabalham noutras áreas sabem mais do que nós em muitas questões.

É necessário saber que lidamos com um objeto complexo, com muitas dimensões e que temos de estar disponíveis para enfrentar muito trabalho, fazendo um esforço constante de não negligenciar nenhuma dimensão de análise, mesmo que depois cada pessoa tenha de fazer as suas próprias escolhas. O objeto é complexo e ninguém lida com a complexidade toda, é necessário fazer opções e isso exige uma postura muito exigente, de construção, atualização e integração de conhecimento. O conselho é também o de que o trabalho em Linguística de Texto nos deverá obrigar a ter uma postura de travessia no arame, pois queremos trabalhar com texto, mas não podemos desequilibrar-nos.

Temos de nos manter em equilíbrio, sabendo, contudo, que esta é uma travessia com rede. Teremos é de saber onde é que estão as redes, quais são as redes. Provavelmente isto é uma atitude científica, que é útil em qualquer campo de trabalho: saber que temos dúvidas, saber que outras pessoas que trabalham em áreas próximas ou afins podem ajudar a tirar dúvidas e que a ideia de trabalho colaborativo pode fazer a diferença. Sobre o que é que pode esperar um/uma estudante de Linguística de Texto? Eu serei muito suspeita, pois penso que trabalhar em Linguística de Texto é muito estimulante.

Os textos vão sempre à frente da teoria, estão sempre a colocar novos problemas, a obrigar a repensar os problemas já existentes. A questão é que dá muito trabalho, mas, na verdade, tudo dá trabalho. Não quero com isto dizer que a Linguística de Texto dá mais trabalho do que outras áreas. Estarei apenas a tentar dizer que a Linguística de Texto tem o seu objeto próprio, mas, pela natureza desse objeto, compra o “pacote completo”. Portanto, é preciso estar preparado para isso. Depois, é muito desafiador, os textos são muito provocadores no sentido positivo e acaba por ser muito viciante porque os textos são dinâmicos, flexíveis e estão frequentemente a colocar estimulantes questões a quem os analisa.


__

Agradecemos à Revista elingUP pela gentileza e disponibilidade em sua parceria com o Linguisticamente Falando.

10 visualizações0 comentário

Comentarios


bottom of page